Índia, um tapa na arrogância

Antes do nosso voo aterrissar em solo indiano, a ansiedade era enorme. E ela vinha acompanhada de muitas perguntas. Será que iriamos gostar? Seria tudo que as pessoas falam, de ruim e de bom? Para ajudar,  de todos os lugares que visitaríamos no país(e talvez na vida) o mais intrigante era nosso ponto de chegada, Varanasi. A escolha foi por uma questão de logística e para encarar o que era mais difícil primeiro. Já havia lido tanto a respeito do país, de cada cidade, e passado por tantos choques culturais antes, o que de tão surpreendente teria nesse país a ponto de abalar as estruturas de uma viajante “experiente”? E com esse turbilhão de idéias e pensamentos, chegamos em Varanasi. No caminho do aeroporto até a cidade eu me perguntava quedê  a Índia que causa repulsa em tanta gente? Vimos sujeira, confusão, vacas, mas tudo num estilo caótico asiático normal, e não num estilo de outro mundo descrito por todos.  Quando chegamos na cidade velha, um soco na cara e no estômago ao mesmo tempo me mostraram: agora sim, aquilo era a tal India. Ao sairmos do carro, várias pessoas se aproximaram, cada uma querendo vender uma coisa diferente, cada uma querendo dizer uma coisa diferente, oferecer serviços.

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” Qual país? Posso te levar num ótimo hotel! Quer um barco? Temos um lindo sari para sua bela esposa!” No monólogo indiano não havia espaço para as minhas várias perguntas de 30 minutos atrás, muito menos para o meu “não, obrigada.”  O motorista do táxi nos apresentou ao menino que nos levaria até o hotel pois os carros não passam de um certo ponto da cidade antiga de Varanasi. E aquele menino franzino e sério pegou um dos mochilões, colocou no ombro e saiu andando rápido. E eu gritava, “o mochilão tem rodinha, coloca no chão!” Mas ele estava certo, não tinha como colocar nada naquele chão. Aquilo não é chão, é um tapete de cocô.

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As ruelas de Varanasi são imundas. Esqueça tudo que você sabe de sujeira até agora, aquilo era uma imundisse num nível superior e máximo. Você disputa espaço com cocô, vacas, macacos, lixo e eventuais poças que não são de água, mas a mistura dela com todas as sujeiras da cidade. O fedor é grande, o barulho também.

sujeira

Um grupo de mulheres de cabeça raspada passava, umas cantando e outras falando. Nos esprememos para deixar passar uma procissão com um corpo envolto em um pano branco com enfeites laranjas. Uma vaca, um boi e um bezerro magrelos atrapalham o caminho. E no meio de tudo aquilo alguns comerciantes mais velhos continuavam sentados nas suas lojas vendo a vida passar, como se aquele fosse o lugar mais sereno da terra.

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Paralelamente, nós dois tentávamos acompanhar o ritmo de caminhada do menino magrelo que andava a mil naquelas ruas com uma mala de 12 kilos da cabeça. Chegamos ao hotel reservado e descobrimos que nosso quarto já tinha dono. Fomos a outro hotel indicado pelo gerente  e voltaríamos para lá no dia seguinte. No nosso novo hotel, uma senhora indiana tossia tanto que parecia morrer, e isso não é uma metáfora. O banheiro do quarto era sujo mas encaramos um banho porque não havia opção. Voltamos para o restaurante do primeiro hotel para comer, afinal de contas nesses poucos minutos aquele me parecia o melhor lugar de Varanasi. Foi a primeira hora que nossa mente conseguiu descalerar. E nos olhamos mas não falamos nada. Dois tagarelas sem assunto. Um silêncio inédito entre nós. Tive raiva de mim. Veja bem, o Klaus é o melhor companheiro de viagem que alguém pode ter, mas dificilmente escolhe algum destino. Ele prefere ser levado e as vezes só descobre para onde vamos na hora de fazer as malas. A culpa era minha. Por que eu tinha colocado a gente naquela situação, naquele lugar? O que eu faria nos próximos 15 dias na Índia? Veio a comida. Pelo menos isso estava ótimo. Sem dúvida a melhor comida indiana que eu tinha provado e a melhor comida das férias até aquele momento. Olhamos para o rio Ganges, fomos até o Ghat principal mas já era tarde. Só vimos pedintes que mal conseguiam estender a mão de tão doentes.Tudo aquilo era demais para nós. Eu só queria ir embora dali. Sumir daquele mundo paralelo. Eu tinha caido de para quédas num filme indiano do Almodovar e não tinha Antonio Banderas que me salvaria. No dia seguinte nos mudamos para o novo hotel. Sugeri que caminhassemos a beira do rio  por algum tempo, “dizem que é assim que conhecemos a verdadeira Varanasi” disse eu com uma esperança mínima de que um milagre acontesesse e que aquele lugar se transformasse num estalar de dedos diante dos meus olhos.

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Vimos gente rezando, gente lavando roupa, gente pedindo dinheiro, gente tomando banho.

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Um garoto se aproximou para vender tinta em pó. Ele era tão articulado e tinha um brilho nos olhos, ficamos conversando hipnotizados e apaixonados por ele.

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Conversamos com um moço que vendia cartões postais. Ele era quieto, não insitia. Compramos alguns postais, marcamos um passeio de barco para mais tarde com seu irmão. Vimos meninos jogando cricket.

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Vimos sadhus meditando. Barbeiros ao ar livre. Rimos bastante com os meninos que olhavam para mim e nos seguiam por vários minutos com aquele olhar desconsertante e insistente que só o indiano tem.

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E assim ficamos o dia todo. Caminhando à beira do rio. Conversando com quem nos desse conversa. Rindo das chatices dos indianos. Correspondendo os sorrisos. Sendo correspondidos. E só.

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Quando voltamos nos demos conta. Tinha acontecido. Num passe de mágica ficamos perdidos de amor pela Índia. Assim, totalmente sem explicação, e ao mesmo tempo tão fácil de entender.

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E quando voltamos ao hotel, no meio de um chá de masala eu comecei a chorar. E meu marido também. E eu chorava, chorava e chorava. Ele perguntava o que aconteceu, e eu não sabia dizer, nem ele, que se emocionava comigo. Por mais bicho grilismo que isso possa soar, aquelas pessoas e aquele lugar tinham me tocado.

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Tudo em Varanasi era muito ou pouco, céu ou inferno, nirvana ou karma. Não acho que devemos nos desculpar pelo que sentimos, mas peço licença pelo meu sentimentalismo. Não há outra maneira de contar o que aconteceu conosco naqueles dias. Eu me senti pequena por ter julgado tão mal aquele lugar. Como eu podia ser tão superficial de achar que aquela cidade era só a sua casca? Varanasi é muito mais do que um lugar onde acontecem os crematórios hindus, que é suja e cheias de doentes que desejam acabar sua vida ali, muito mais do que a cerimônia que acontece toda noite, muito além do que os livros de viagem podem relatar. Muito além do que eu serei capaz de contar aqui. Quem te mostra isso são as pessoas com seus sorrisos largos, a fé tão latente, a tranquilidade com que tantas pessoas vivem no meio daquele caos, e mesmo a tristeza que se vê a cada esquina.  Embora um coração aberto seja essencial para entender o samba do crioulo doido indiano, só isso não é suficiente. É preciso esquecer alguns conceitos que temos e sermos completamente contraditórios . Porque ao mesmo tempo que uma visita à Índia carece de muita preparação e leitura para saber o que te espera, é preciso esquecer de tudo que achamos saber sobre o país  para conseguir enxergar o que ele realmente é .

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Não acho que somos seres especiais e superiores por termos amado essa cidade, por termos nos apaixonado pela Índia e entendido o que ela é. Até porque, do mesmo jeito que ela é tudo de bom que se diz, ela é tudo de ruim que se ouve por aí também. Por isso é  fácil entender as razões dos que detestam o país.  Difícil é explicar porque se cai de amores por ele. No final das contas, acho que esse amor simplesmente acontece. Como o amor que sentimos por pessoas. Quem nunca se apaixonou por alguém completamente diferente contrariando a lógica?

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Foi assim que a nossa viagem naquele país começou. Com todos os sentimentos juntos e a flor da pele. Nenhum viajante, nem mesmo aquele que adora os números e tem trocentos países na sua lista de visitados, sabe de nada. É isso que Índia te ensina. Varanasi tinha dado um tapa na minha arrogância. Eu estava no meu devido lugar. Eu era uma viajante inexperiente de novo e para sempre.

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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no "sobre" e escolha "sobre mim" na barra superior.

34 comentários em “Índia, um tapa na arrogância

    • janeiro 27, 2013 a 12:37 pm
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      Obrigada, Helô! Esse menino é fofo, uma riqueza. Pena que não o encontrei mais. Ficou a lembrança!

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  • janeiro 27, 2013 a 4:36 pm
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    Que texto lindo! Imagino que seja preciso se desligar de muitos preconceitos para amar a Índia. Sempre que leio sobre lá, vejo muitas contradições. Sempre vejo muita beleza ao lado de muito caos. Palácios lindos ao lado de sujeira. Alegria e tristeza, lado a lado. Que bom que você conseguiu ver além e amar Varanasi! Eu acho que ainda não estou preparada para o choque cultural, mas espero consguir ver o país com seus olhos quando estiver lá. Beijos!

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    • janeiro 27, 2013 a 5:11 pm
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      Camila, acho que no fundo ninguém esta totalmente preparado para a India. Mas é possível ver além da casca, e curtir a experiência. Fico feliz que tenha gostado, de verdade!

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  • janeiro 28, 2013 a 1:03 am
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    Amei teu post! Sou apaixonada pela Índia e por toda a cultura, meu sonho é conhecer o Taj Mahal.
    Eu já li várias coisas sobre a Índia e a maioria relata como vc relatou, suja, trânsito louco, animais valem mais que pessoas, mas a fé que essas pessoas trazem com elas é inexplicável, algo que só pode sentir estando lá, e ao voltar nunca mais somos os mesmos…

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    • janeiro 28, 2013 a 1:08 am
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      Yasmin, essa parte da fé eu senti lá em
      Varanasi de uma maneira mais forte. Nos outros locais senti a religião muito presente, mas de uma outra maneira. A India é incrível, difícil explicar precisamente o que se sente por lá. Obrigada pela visita!

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  • janeiro 28, 2013 a 1:35 am
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    ansiosa pelo proximo post!

    uau!

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  • janeiro 28, 2013 a 1:08 pm
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    Lindo texto! Descobri seu blog na melhor forma, com um relato da Índia que eu sou doida pra conhecer. Acho que imagino o que vc sentiu. Muitas vezes a gente conhece lugares lindos, tão lindos que mais parecem cenários de uma novela e não a realidade. Mas a beleza do que é real é realmente emocionante, pessoas especiais aparecem e a sujeira ou limpeza não importam tanto. Minha melhor amiga aqui é indiana ( moro na Alemanha) e me sinto totalmente querida e acolhida por ela e seu esposo quando os visito. E a comida? ummm…Quero conhecer a Índia já!!

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    • janeiro 28, 2013 a 2:51 pm
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      A comida é maravilhosa mesmo! A India é encantadora. Recomendo demais!

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  • janeiro 28, 2013 a 2:39 pm
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    Liliastahr, estou completamente maravilhada com o seu relato sobre a India e Varanasi de uma maneira tão humana, capaz de perceber os lados bons e ruim do lugar. Eu ja fui em alguns paises também e como vc sempre vi as coisas boas e ruins de cada país. Mais a India agóra mais do que nunca, esta em minha lista. Vou ler os outros post , parabéns pelo blog.

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  • janeiro 29, 2013 a 1:07 am
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    Lili,

    A Índia é isso. Um turbilhão de sentimentos difíceis de explicar. Lugar lindo e feio, cinzento e colorido, santo e profano, rico e pobre. Haja contradições para traduzir o que se vive. Só visitando para entender o que é a Índia. Lindo relato.
    Bjs

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    • janeiro 29, 2013 a 8:50 pm
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      É, a grande tradução (e beleza) da Índia está realmente na contradição, na confusão. Obrigada!

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  • março 25, 2013 a 3:35 am
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    Que texto interessante! Sempre quis ir para a India mas nao sei se estou preparado para o choque, vou sempre adiando por destinos mais “faceis”.

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    • março 25, 2013 a 6:42 am
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      Matheus, eu também adiei bastante essa viagem por medo de não gostar e não saber se daria conta.Mas amei a Índia! O choque é enorme realmente, mas se você consegue ver além dele, a experiência é incrível!

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  • setembro 23, 2014 a 11:42 am
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    Olá, já estive algumas vezes em Varanasi e agora em novembro vou à India de novo. Claro que não posso deixar de me perder em Varanasi, lugar que nos “descasca”, nos coloca frente a frente com o inimaginável! Ótimo post!

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  • janeiro 4, 2015 a 2:14 pm
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    fiquei encantado com seu relato…simplesmente so aumentou minha vontade de conhecer esse pais..parabéns!!!!

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  • junho 25, 2015 a 8:19 pm
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    A India me parece ser muito suja e deve feder horrores!
    Essa água do Ganges deve ser pior que ácido sulfúrico, credo.

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  • janeiro 28, 2017 a 11:44 am
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    Lili, adorei o seu relato e tb fiquei encantada com o garoto da foto! Vc com a sua sensibilidade conseguiu ver além do que estava diante de seus olhos!!! Um beijo e te espero aqui em Firenze. Denya

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    • janeiro 30, 2017 a 3:42 pm
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      Obrigada, conterrânea! Um beijo grande!

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  • janeiro 28, 2017 a 2:43 pm
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    Obrigada, mil vezes obrigada por estas palavras sinceras. Que relato maravilhoso e inspirador, que fala de um sentimento do qual devemos nos libertar pra visitar qualquer destino escolhido.

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    • janeiro 30, 2017 a 3:42 pm
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      Nossa Natalia, fiquei até boba com seu comentário. Obrigada você! Bom demais poder tocar as pessoas.

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