Quando o pior(ou quase) acontece numa viagem

Essa é a história aconteceu conosco no ínico da viagem à India. Um acidente é tudo que você não deseja em viagem alguma, ainda mais num local insalubre como Varanasi. Mas algumas liçòes foram tiradas desse acidente que o Klaus sofreu por lá. O post é longo, mas conta uma história com final feliz. Optei não colocar fotos, pois não quero colocar o lado negativo da historia em foco. Espero que gostem .

No nosso terceiro dia em Varanasi, já estávamos complemante apaixonados pelo país e nos sentindo em casa. Era o dia de conhecer o forte Ramnagar, ver a a Universidade Banaras mas sem antes dar uma caminhada rápida a beira do rio. Estávamos descendo as escadas para o Ganges quando algo totalmente fora dos planos aconteceu. O Klaus tomou um tombo e foi quicando até o final das escadas. Eu estava atrás e ouvi o barulho da coluna dele batendo forte contra o cimento. Ele ficou no chão, não falava e nem mexia por alguns poucos e longos segundos. Cor então, nem pensar, ele estava completamente branco. Foi juntando gente em volta. Várias pessoas apontavam para o Ganges, como se sugerissem um mergulho no rio para que tudo ficasse bem.

Ele se levantou com a minha ajuda, mas a voz não saía  e eu tentava entender o que ele dizia fazendo leitura labial. E o que ele dizia? “Eu preciso mergulhar no rio para ficar bem, foi um sinal.” Ele bateu com a cabeça, pensei. Sadhu, sai desse corpo e devolva meu marido. Acho que foi a única hora naquele dia que eu tive vontade de rir. Rio Ganges, Varanasi, um montão de machucado aberto pronto para receber bacteria?O que???? Já temos um problema, não é melhor ficarmos só com esse, Klaus? Verdade seja dita,o acidente poderia ser facilmente evitado. Ele achou que era tranquilo descer aquela escada com uma mistura de lodo e merda. Sim, merda. Era uma papa nojenta que saía do cano dos hoteis que fez com que a escada ficasse um sabão. E lá estava ele, sem mexer direito, urrando de dor e todo coberto de merda. Tragicômico, pode rir comigo. E eu que até aquele momento estava cheia de cuidados, derramava toda agua mineral da garrafa que estava comigo e esfregava a minha mão nos braços e pernas do Klaus na tentativa de tirar aquilo do corpo dele. Estávamos os dois na merda, literalmente.

Com muito custo chegamos de volta ao hotel. Foi só o tempo dele tomar um banho e deitar, e o gerente do hotel bateu na porta. Em um segundo metade dos funcionários estava no meu quarto querendo ajudar, todos falando coisas que eu não entendia ao mesmo tempo. O Klaus não queria se levantar da cama, ele tinha medo de terminar de quebrar algo e piorar o que já não estava bom. A dor era tão grande que ele tinha certeza que havia quebrado a coluna. Não sei se é possível quebrar a espinha e continuar caminhando mas naquele momento não estávamos pensando com qualquer logica. Quando tentava se mover, a dor era muita e parecia impossível sair do lugar. As ruas da cidade velha de Varanasi não permitem que uma ambulância chegue ali com o transporte adequado, então ele não tinha opção, teria que se levantar sem a ajuda de uma maca. O pessoal do hotel sugeriu que pegássemos um barco até o hospital, eles arrumariam tudo para nós, e assim foi.

Com a ajuda dos homens do hotel ele se levantou, gritando de dor. Enquanto isso eu chorava disfarçadamente sob os olhares de pena dos indianos. Essa incredible India tinha me reservado muito mais emoção do que poderia imaginar. E uma corrida de barco + uma de tuk tuk depois, chegamos ao hospital. Pensa o pior que pode acontecer numa viagem? Parar no hospital. Agora pensa qual é o pior país do mundo para precisar de um hospital? India, pensava eu. Agora pensa qual é a pior cidade da India para isso acontecer? Varanasi. Foi isso que passou pela minha cabeça antes de chegarmos lá.

Mas acho que estava errada. O hospital para onde fomos levados é muito melhor do que a minha imaginação havia criado. Simples, lógico, mas não vi ninguém quase morrendo no corredor como pensei que seria. Que fique claro, o hospital é privado, então mais do que justo que seja decente. Depois que chegamos lá e eu vi que meu marido receberia ajuda médica e que as coisas estavam se encaminhando, meu lado prático começou a pensar: eles arrancariam cada centavo de mim. O hotel que nos ajudou, o hospital, todo mundo teria sua fatia do bolo. Não só a minha viagem provavelmente acabaria ali, como também ficaríamos pobres. Mas o importante mesmo era que meu marido ficasse bem. Enquanto isso os caras do hotel falavam com o pessoal do pagamento do hospital. Aliás, na India é assim.: você pode estar no meio de um ataque cardíaco que não tem jeito, atendimento só depois do pagamento.

E conversa vai, conversa vem, os valores subiram 2 vezes. Antes a consulta era 200, até que no final paguei 600. E eu ficava entre a discussão do preço que subia a cada minuto e a preocupação de saber se estava tudo bem com o meu marido . Sem contar que me senti mal de “furar ” a fila.  Apesar do hospital ser privado, os preços eram diferentes para estrangeiros, e por isso mesmo quem paga mais tem a preferência. Injusto, não de ter um tratamento nitidamente preferencial, mas também não gostei de pagar a mais. No final das contas, o médico antendeu o Klaus e disse que ele precisaria fazer  uma ressonância magnética da coluna e do peito, que doía demais. Eles me explicaram que era caro, mas como ele sentia muita dor, além de ter certeza que a coluna estava ok, eles deveriam ter certeza que nenhum órgão havia sido atingido por uma eventual fratura. Eu concordei, afinal de contas só uma ressonancia daria a certeza da real situação. Paga aqui, assina aqui, e fomos para a área de ressonância. A esta altura, 3 horas já tinham se passado, mas os funcionários do hotel ainda estavam conosco.

Eles foram fundamentais. Não sei nem por onde teria começado numa situação daquela. Provavelmente na mão de algum curandeiro maluco. Eles pegaram o barco, mobilizaram 3 funcionários para ir conosco mais o piloto do barco, pagaram o tuk tuk(que a princípio não quis cobrar porque era uma situação de doença). Foram demais. Enquanto o Klaus fazia a ressonancia, eu agia como uma maluca querendo informações de insider antes de ver o médico. Ele está bem? Qual a gravidade? Até na sala do rapaz que controlava a máquina da ressonancia eu entrei. E fui educadamente arrancada de lá, rs. Eu tive que agir como alguem forte e que sabia o que estava fazendo, até para o Klaus não entrar em pânico. Mas a partir da hora que ele estava dentro daquela máquina e não podia me ver eu achei que poderia me permitir desesperar um pouco.

Resultados na mão, era a hora de ver o médico de novo. Meu coração batia forte, um medo enorme de ser algo sério. Mas a notícia era boa. A pancada tinha deixado um roxo e alguns machucados, mas a dor insuportável que fez o Klaus pensar que tinha quebrado algum osso era puramente muscular. De acordo com o médico existem dores musculares piores que as ósseas, e esse era um caso. Ele nos tranquilizou e disse que poucos dias depois poderíamos seguir tranquilos com a viagem, sempre respeitando os limites da dor. Ele também nos deu seu telefone e disse que poderíamos ligar a qualquer hora do dia ou da noite. O médico também passou uma injeção cavalar para passar a dor antes de sairmos do hospital. Àquela altura nós já tinhamos dispensado os rapazes do hotel e estavamos nos virando sozinhos. No caminho de volta os habituais vendedores insistentes tentavam vender até a mãe, mas ao falarmos que estávamos voltando do hospital, eles pediam mil desculpas e saim. Não sem antes nos oferecer um chá e perguntar se precisávamos de alguma coisa.

Quando chegamos, comoção geral. Todo mundo queria saber como ele estava, ajudar de alguma forma. Já era quase 17:00, passamos o dia todo no hospital. Ele tomou os remédios, foi uma noite complicada, mas acordou melhor. Eu fui logo cedo agradecer a Shiva e todos os outros deuses por terem nos livrado de algo pior. O Klaus é grande, mas imagino que aquele mesmo tombo poderia ter feito um estrago terrível numa pessoa menor e franzina. As pessoas nos Ghats próximos ao nosso hotel já sabiam o que tinha acontecido e a maldita escada estava coberta de areia, provavelmente para evitar um segundo acidente. Quando fui comprar uma oferenda para jogar no rio e contei razão de estar ali, a menininha que vendia nem queria me cobrar. Ela viu toda a confusão do dia anterior e sabia do acidente. Andei sozinha por um bom tempo e como no dia anterior expliquei que todo meu dinheiro tinha ficado no hospital para quem me abordava tentando oferecer algum serviço(boat, madam?). Eles se desculpavam e diziam que mother Ganga iria me ajudar. Fiquei tocada com a atitude das pessoas. O pessoal do hotel não me cobrou um centavo e pareceu estar até ofendido quando eu quis pagar. E ainda me ensinaram umas mandigas para ter certeza que ele ficaria bom logo,rs. Disseram para eu concentrar as energias na melhora do Klaus, e que na India, quando se está doente, as pessoas ajudam. Quando viram o Klaus caminhando e bem melhor, ficaram felizes de verdade.

Foi a pior e melhor experiência que poderia acontecer. Nós passamos por um susto, mas conhecemos a bondade das pessoas. Não vou tentar pregar que indiano é aquele ser zen que muita gente idealiza, eles são super capitalistas e você deve abrir o olho com as pessoas quando estiver por lá. E exatamente porque eu fui com esse pensamento fiquei pasma com a reação das pessoas diante do nosso problema. Saimos com uma sensação de que por trás dos indianos que te olham como um cifrão, existe o zelo pelo outro e um senso de comunidade que não se vê em qualquer lugar nos dias de hoje.

A única coisa que saiu como esperado foi a conta do hospital, que cobra um preço bem maior de estrangeiro, mas deixam isso claro. Foi confuso pois os valores mudaram durante a “negociação”, mas acabamos pagando 8 mil rúpias pela ressonância, 600 pela consulta, e por volta de 300 com remédios e a injeção para dor. Isso tudo deu menos de 105 libras, ou 315 reais. Isso em Londres não dá nem para pagar a consulta com médico particular, uma ressonância então, é quase 10 vezes isso. Temos seguro e fomos reembolsados também. Pensei bastante se deveria contar isso aqui no blog, não entrei em detalhes sobre o acontecido nas redes sociais, afinal de contas isso não é dica de viagem.  Entretanto, ficaram liçoes, tanto de vida, quanto práticas dessa história, que merecem ser divididas.

Da práticas, a primeira é para ter um seguro de viagem, lógico. Mas como em  alguns lugares da Asia os serviços médicos são muito baratos, pode valer a pena trocar um seguro que cobre tudo mas com uma franquia alta por um melhor e mais power que só cobre problemas mais sérios. Outra lição é, num lugar insalubre como Varansi, procure saber o nome e endereço dos melhores hospitais e tenha números emergenciais apostos. Nós já tinhamos uma pastinha com o passaporte e todas as informaçoes do seguro, no vucovuco do acidente foi só pegar a pasta e partir, mais prático do que ter que ir atrás de tudo antes de correr para o hospital. Sem contar que como disse, atendimento só depois do pagamento, mesmo emergencial. Precisamos pagar e depois pedimos o dinheiro gasto para o seguro. Nesse caso eu acho que é melhor pagar no cartão de crédito, como fizemos. E guarde bem todos os recibos. O que aconteceu com o Klaus pode parecer um fato isolado, mas quando chegamos ao hospital fomos informados que ele era o sexto estrangeiro do dia, e ainda era de manhã. 4 com problemas de estomago e 1 senhora com a  bacia quebrada por causa de, tchantchantchantchan… um tombo numa escada escorregadia!

A lição moral disso tudo a gente já tinha aprendido na chegada à Varanasi, mas foi reforçada. Não julgar, não julgar e não julgar. Apesar de tudo, eu ainda fui surpreendida pois não esperava um tratamento tão carinhoso das pessoas. Nem esperava um hospital decente. Lição moral número 2: amor com amor se paga. Não é exagero meu, quem conhece pode confirmar. O Klaus é uma pessoa que faz muita questão de tratar bem as pessoas e fala com o mesmo entusiasmo com todo mundo, sem fazer a menor diferença se é o presidente da república ou porteiro, porque na verdade não há. E isso ajudou muito. Quando o problema aconteceu, ele já tinha feito amizade com metade do hotel. Tenho certeza que isso ajudou. O hotel certamente ajudaria qualquer outro hóspede, mas o cuidado deles foi além, desde as pequenas coisas, como levar um travesseiro e um cobertor para deixar tudo mais confortável no barco até ficar por horas conosco no hospital. E por fim, ficou claro para nós que deveriamos ser positivos para curtir o que aquela viagem nos reservava. Numa mesma situação, poderíamos ter nos julgado como azarados, lamentado e odiado o país, afinal de contas foi a podridão de Varanasi que causou o acidente. Mas preferimos nos apegar a fofura das pessoas, a sorte de estarmos num hotel onde todos são tão legais e principalmente, ao final feliz. O tombo não causou nenhum problema grave, não precisamos mudar os planos da viagem, o preço do hospital não teria estourado o orçamento nem sem seguro, e ainda aconteceu na cidade onde tivemos mais folga e quase nenhuma obrigação turística. Prefiro pensar que tivemos uma baita sorte.

*Peço desculpas pelo texto dramático, gigante e sem fotos. Prometo que os próximos serão com muitas dicas e imagens!

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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no “sobre” e escolha “sobre mim” na barra superior.

8 comentários em “Quando o pior(ou quase) acontece numa viagem

  • Fevereiro 17, 2013 a 1:07 am
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    Nossa, Lili, imagino sua ansiedade em meio a esses acontecimentos! Ainda bem que, apesar do susto e das dores, o acidente não foi sério. Nós também tivemos que ir ao hospital na Suécia. O Eduardo machucou a perna com um machado (tentando cortar lenha, olha a idéia!). No fim também deu tudo certo, mas e o medo de ter atingido um nervo ou algo assim? Ainda bem que também tínhamos seguro. Nunca mais viajo sem!

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    • Fevereiro 17, 2013 a 1:42 am
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      Camila, nossa cortando lenha? Deve ter sido feio mesmo. E a ansiedade foi grande. Mas ja tive um problema muscular que causava muita dor e sabia que tinha uma chance de ser o mesmo. O importante é que acabou bem!

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  • agosto 15, 2013 a 6:19 pm
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    Simplesmente emocionante seu relato

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    • agosto 15, 2013 a 7:37 pm
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      Experimentamos todas as emoções nesse dia! Mas como tudo acabou bem posso dizer que foi uma experiência super valida!

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  • Fevereiro 16, 2016 a 5:47 pm
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    O meu Deus meu namorado e indiano mas estamos no Brasil eu tenho um certo receio de ir para india pq la e tudo muito rigoroso ..
    porem desejo muito ir conhecer o país dele. E sua história foi realmente preocupante e digamos depois do susto proveitosa rs Beijos

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    • Fevereiro 23, 2016 a 6:15 pm
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      Não tenha medo! Informe-se bastante antes de ir, mas vá com o coração aberto! A India é maravilhosa!!!

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