Varanasi e a morte

Não me lembro de ter ido a alguma outra cidade onde a morte é a grande atração turística. E isso é só mais um motivo que faz de Varanasi uma cidade tão especial e única. De um certo modo, a morte está em todos os lugares. As pessoas vão a cidade  para enterrarem alguém, ou para curarem doenças e fugir da morte, para acabarem seus dias ali tendo assim uma morte mais digna, ou mesmo para agradecerem aos deuses o livramento da morte. Eles acreditam que se forem cremados em Varanasi e tiverem suas cinzas jogadas naquela parte do Ganges, vão direto ao Nirvana, Karma nunca mais.  Antes de chegar a cidade, além de todas as perguntas na cabeça, eu achava que por ser a morte algo tão importante para a cidade, as cremações seriam sua maior e melhor atração. Chegando lá, vi que estava mais uma vez enganada. Existem dois Ghats importantes onde acontecem as cremações de Varanasi. O Harishchandra Ghat , que fica mais próximo ao Assi Ghat,  tem cremações tradicionais, e também um crematório elétrico. Mas é o Manikarnika Ghat o mais conhecido e importante. Vimos as cremações neste Ghat no final do dia de barco, antes de assistirmos à cerimonia que acontece diariamente no Dasaswamedh Ghat. Foi bonito, não ficamos muito perto mas vimos barcos saindo com corpos, ouvimos as explicações sobre as cremações e rituais de morte hindus, etc. Mulheres grávidas, homens sagrados, crianças, leprosos, pessoas que morreram de picada de cobra e animais, são jogados ao rio sem serem cremados. Os outros corpos são lavados antes da cremação e revestidos com panos. O pano branco significa que o corpo é de um homem, vermelho de uma mulher jovem e o dourado de uma mulher mais velha. Depois decidimos ver por outro ângulo e fomos ao Manikarnika Ghat andando. Decepção total. Não com as cremações em si, mas como eu já havia lido que lá tem uma certa restrição, que você não deve tirar foto, etc, eu acabei imaginando que chegaria lá e veria um ambiente de respeito e calma. E o que vimos foi um monte de indiano querendo ganhar dinheiro com os turistas. Vimos 2 turistas sentandos em paz, sabe Deus como eles conseguiram.  Não tivemos a mesma sorte. Juntou um grupo de 3 a nossa volta, cada um querendo nos levar para um lugar diferente para termos uma “boa vista”. Eles diziam que era um desrespeito tirar fotos ali, “respeitem a dor das famílias”e concordamos que é uma situação que exige respeito. Acontece que antes de chegarmos lá eu fiz questão de guardar a camera, ficamos em silêncio e mantivemos uma certa distância porque por mais turístico que seja, é um momento doloroso e delicado que deve ser respeitado. Mas os rapazes não pareciam tão preocupados com o tal respeito. Eles pareciam até drogados, agitados, diferentes dos outros  vendedores insistentes, cada um falava uma coisa, todos juntos. Antes de ficar  nervosa  decidi sair dali. Talvez eu deveria ter pago para ter uma “boa vista” e assim teria comprado a minha paz também. No final das contas só vimos do barco, e acho que é o que recomendo. Para quem quiser ver de perto, vá sabendo o que pode te aguardar, negocie um preço qualquer e relaxe. Até passamos no Harishchandra Ghat, mas a cremação já estava no final e não quis ficar por lá, traumatizei.
cremaçào
Fiquei pensando também , onde os ricos e milionários indianos fazem seus velórios. Pelo menos os indianos que pareciam ter mais dinheiro que encontramos pelo caminho me parecem meio elitistas, tratando as pessoas que eles julgavam estar abaixo deles com um certo desprezo. Vai ver isso tem relaçào com a cultura das castas, mas a dúvida permanece. Não imagino um desses indianos montados na grana sonhando com a morte em Varanasi e não vi nenhum indiano que parecesse rico por lá. Questinei se a fé deles é diferente, como isso funciona, mas voltei sem resposta.
Manikarnika Ghat
Foi interessante conhecer também um pouco dos costumes relacionados a morte. Observei muitas pessoas, inclusive mulheres, de cabeça raspada andando pela cidade. E a explicação que nos deram é que quando alguém da familia morre, eles raspam a cabeça. A esposa ou marido raspam no dia do velório, e os outros familiares esperam alguns dias para fazê-lo. Parece que quando acaba a cremação a familia se banha no Ganges. E a cor usada pelas pessoas no velório é o branco. Apesar de soar extremamente pesado, ter a morte como atração turística não faz de Varanasi uma cidade carregada. Talvez seja a maneira que os hindus tem de encarar a morte, não como um fim, mas como um início. Ou vai ver que é verdade, todos os karmas são levados pelo Ganges.
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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no "sobre" e escolha "sobre mim" na barra superior.

4 comentários em “Varanasi e a morte

  • Fevereiro 16, 2013 a 2:39 pm
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    Passamos pela mesma coisa. Vimos a cremação do barco. Depois, resolvemos descer e ver na margem do rio. Sem câmeras, em silêncio e com respeito. Só que os vendedores não nos deixavam em paz. Resolvemos ir embora, mas um deles veio pedir uma doação para os mortos. Até estipulou o valor, mas nós não demos e fomos embora. O cara veio atrás, gritando que por não termos doado teríamos “bad karma” para sempre. Fomos amaldiçoados por um golpista às margens do Ganges. =p

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    • Fevereiro 16, 2013 a 2:55 pm
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      Garanto que um mergulho no rio (Rishikesh não vale)resolveria seu problema karmico!rs

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