A viagem perfeita

Outro dia num bate papo surgiu o assunto dos estilos de viagem de cada um. E depois desse papo eu parei para pensar não só no meu estilo atual de viagem, como o quanto mudei a minha maneira de viajar ao longo do tempo e o quanto isso esta 100% relacionado as nossa próprias mudanças (ah, a maturidade!).

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No início de tudo, eu viajava mesmo para ir a praia, beber minha cerveja gelada e farrear. Sempre gostei de interagir, saber como as pessoas do lugar vivem, o que gostam etc, e este é um ponto que mantive durante toda a minha vida de viajante. Mas era basicamente isso que eu queria antes e mais nada. Cheguei a passar quase 2 meses em Salvador e nunca fui ao Elevador Lacerda(ainda devo essa visita).Em compensação eu sabia direitinho o beabá dos nativos: qual era a melhor praia, a mellhor reggae balada, o bairro mais bacana para morar, etc . Lógico que isso era o meu interesse na época. Rever amigos, fazer outros novos, comer caranguejo na beira da praia, tudo isso  era muito mais interessante do que visitar uma igreja. Mas acho que recebi uma certa influência do senso comum que naquela época via férias como praia, cerveja gelada e farra.

Caraiva

Não mudou completamente mas acho que cada vez mais o brasileiro está aceitando que férias podem ser legais de maneiras variadas, e nem só de praia e bunda na areia vive uma viagem feliz. Quando mudei para cá, vivi o outro extremo. Antes mesmo de começar a viajar pela Europa, eu vivi intesamente uma vida de turista em Londres. Enquanto aguardava meu visto e tinha tempo de sobra, conhecia tudo que podia, e de preferencia era de graça já que estavamos começando uma vida e a grana era curtíssima. Fui a muitos museus, ia marcando a parte de cada um que queria e via tudo no meu tempo. Voltava várias vezes e revia aquilo que gostava. Um guia visual da folha me acompanhava e ia riscando tudo que visitava. O guia ainda existe e está quase todo marcado 🙂 Depois descobri que conseguiria viajar com bem pouco e começamos a viajar pela Europa. Depois de voltar de algumas viagens frustada por ter deixado de ver bastante coisa, eu virei uma control checklist freak.

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E  tinha que pesquisar TUDO sobre o lugar e logo, queria ver tudo que havia pesquisado, e obviamente não tinha tempo para aquilo tudo, então a viagem virava uma obrigação. Desde escolher a hora de acordar, que geralmente era super cedo, até onde comer, que deveria ser no restaurante tal, para comer o prato tal, tudo previamente indicado por um amigo/guia. Nisso acabei não só fazendo da viagem algo pouco propenso as deliciosas surpresas e descobertas que devem existir quando a gente se aventura por um lugar novo, como também deixei de fazer várias coisas que eu adorava só para cumprir “obrigações”. Praticamente não saía a noite porque estava morta no final do dia e queria acordar cedo, e aliás acordar cedo sempre foi um martírio para mim e era a coisa que eu mais fazia nas ferias. E foi na primeira vinda da minha mãe, quando visitamos Praga, Viena e Budapeste, que percebi, estava passando do ponto. Minha mãe apelidou a viagem de gincana, porque era quase assim. Acorda, se arruma, come e sai o dia inteiro cumprindo tarefas para ganhar o prêmio no final do dia, que era uma boa noite de sono e nada mais. E me dei conta que cumprir tarefas não era o que eu tinha em mente quando pensava em férias, sempre detestei rotina e excesso de programação, o marido também, então algo estava bem errado para eu levar aquilo que detestava justamente para o meu momento de descanso. Daí em diante, comecei a mudar um pouco. Acordava mais tarde, não me odiava se não desse tempo de ver determinada atração, procurava deixar um espaço para o inesperado. Em capitais e viagens de final de semana ainda é dificil não acordar cedo, mas eu tento escolher o que quero mais e hoje em dia não sofro quando deixo de ver ou fazer algo. E sempre tiro um dia para conhecer a noite do local, porque é algo que a gente ama. Sacrifico uma manhã para não sacrificar a minha vontade real, e é isso que importa. Não gosto de usar o despertador também. Na verdade meu problema maior nem é o horario de acordar, desde que eu acorde naturalmente, sem ser obrigada, então resolvi abolir o despertador nas férias. Também comecei a entender que eu precisava me dar uns luxinhos. Sempre fiz viagens econômicas e acho que sempre farei. Realmente não faz a maior diferença na minha vida ter determinados luxos que para muita gente são importantes. Mas a gente precisa ter uns momentos especiais, e as vezes isso envolve deixar de gastar com uma coisa que a maioria julga “essencial” para gastar com o que a gente realmente quer. Ir a um restaurante bacana, ficar num hotel que a gente sempre quis, ter uma experiência que a a gente sempre sonhou pode ser mais importante do que pagar para entrar em todos os museus, igrejas e atrações de uma cidade. Hoje em dia eu me dou esses presentes e acho que a gente precisa deles sim. Na nossa viagem a India ficamos em hoteis baratinhos a viagem toda, comemos em restaurantes simples, mas eu fazia questão de ficar numa casa barco. Além de muitos viajantes economicos e independentes como nós acharem absurdo pagar caro por aquilo, há os que achem também a casa barco um resort que te distancia dos nativos e da cultura. Com o preço que pagamos em uma diária nele, podeiramos ficar pelo menos 10 noites em outros hoteis simples mas não me doeu nada, eu amei, faria de novo e sei a viagem não teria sido a mesma sem a experiência. Pouco me importa se o resto do mundo acha uma perda de tempo e dinheiro, nós amamos e isso basta.

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Sei que algumas viagens foram dividsor de águas na minha vida de viajante, e nesse aprendizado. Uma que fiz em grupo para Berlim, onde percebi que era a única interessada em conhecer todos os pontos turisticos por exemplo, me ensinou que eu poderia curtir do mesmo jeito uma cidade sem saber muito sobre ela, sem ter que fazer o turismo tradicional. Aliás, eu acho que é nas viagens em grupo e nas 100% solitárias que a gente aprende mais sobre os nossos gostos e vontades. Na preparação para a viagem já notei a diferença de interesses e resolvi não me preocupar muito com a programação para não sofrer. Não pesquisei nada. Fui para Berlim sabendo apenas que deveria comer salsicha,marzipan, beber cerveja e conhecer o muro de Berlim. E voltei apaixonada por Berlim. Não me preocupei em acordar cedo, em ver tudo que a cidade oferecia turisticamente falando e me diverti horrores porque vivi a cidade. E apesar de também querer conhecer os pontos turísticos, tenho que admitir que viver a vida local te faz conhecer qualquer cidade sem deixar a desejar a qualquer city tour. É um outro tipo de turismo que me agradou, e me fez perceber que gosto do equilíbrio dos dois, o turismo “tradicional” e o mais largado, sem muita preocupação, vivendo um pouco a cidade. Por isso mesmo, depois desta viagem meu lema é aumentar o número de dias numa visita a um local que oferece bastante coisa, ou relaxar e ver o que dá num ritmo menos acelerado. É bom ter em mente que posso voltar. E se não voltar, que eu aproveite da minha melhor maneira enquanto estiver lá. Sem contar que nenhuma cidade com mais de uma rua se esgota com uma visita, então correr para que se sempre vai faltar algo no tal checklist? Acho que a cada viagem me conheço melhor e aprendo mais qual tipo de férias me faz feliz. Vou mudando também, e adaptando as ferias à minha realidade de cada momento. De nada adianta seguir um padrão determinado se não é isso que você realmente espera da suas férias. É preciso reconhecer que a gente muda e nossas prioridades e vontades também. Mas uma coisa é certa e acho que aprendi a lição: não existe fórmula perfeita de viagem, muito menos um padrão que se encaixa a todo mundo, nem mesmo que se encaixa na sua vida para sempre. Cada um tem suas prioridades e o grande sucesso de uma viagem é reconhecê-las e respeita-las para não transformar as férias em fardo. Viagem perfeita é aquela que te faz feliz!

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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no "sobre" e escolha "sobre mim" na barra superior.

15 comentários em “A viagem perfeita

  • novembro 19, 2013 a 1:02 am
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    Ótimo texto, como sempre! Mudar faz parte da natureza humana, traz amadurecimento, fico feliz por vc, adorei saber que na próxima viagem que fizermos juntas não mais faremos “uma gincana”,rsrs, te amo, mil bjs

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  • novembro 19, 2013 a 1:05 am
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    Belo relato! Mostra bem o que eu penso… apesar de eu ainda me ver em gincanas….rs

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    • novembro 19, 2013 a 9:25 pm
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      Obrigada, Léo. Espero que vc se livre das gincanas ou se vc é feliz com elas, que aproveite bastante e ganhe sempre,rs.

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      • novembro 20, 2013 a 12:41 am
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        Estou administrando cada vez melhor as gincanas… eu acho… rs
        Aliás, descobri seu blog durante uma pesquisa de aluguel de carros na Croácia! Suas dicas foram cruciais para ter êxito na gincana Hvar-Dubrovnik…rs

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        • novembro 22, 2013 a 2:58 pm
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          Leo,
          Nada deixa um blogueiro de viagem mais feliz do que saber que suasdicas foram provadas e aprovadas. Muito legal que o blog ajudou na sua viagem. Obrigada por voltar e contar aqui, Boa sorte nas próximas gincanas 🙂

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  • novembro 19, 2013 a 10:00 am
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    Lili, adorei o texto! Viva a maturidade! Na maioria das viagens que fui “control checklist freak” eu nem lembro direito… não foi nada divertido e relaxante! Coitada da sua mãe na gincana! ahahahah Outra coisa que eu ainda estou aprendendo, apanhando muito na verdade, são as companhias de viagem…. me meti em cada furada no último ano!!! Bjoo

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    • novembro 19, 2013 a 9:23 pm
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      Fabi, viajar mal acompanhada é a furada mor para mim. Nada como ser obrigada a fazer aquilo que vc não quer mas ferias para não entrar em atrito! Saudades lindona!

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  • novembro 19, 2013 a 5:08 pm
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    Adorei! Realmente não existe fórmula perfeita de viagem, mas a maturidade nos traz mais calma e menos ansiedade, e muitas vezes curtimos mais a viagem e voltamos mais felizes mesmo sem ter passado pelos pontos obrigatórios. Quero me apaixonar por Berlim agora! Bjs

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    • novembro 19, 2013 a 9:21 pm
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      Lu, desconheço quem não goste de Berlim. É uma cidade que esta aprendendo a ser a cada dia, passou por tantas e esta nessa fase de descoberta e de se firmar com suas escolhas. Amo muito! E essa vida de viajante é um aprendizado eterno. Espero sempre quebrar meus preconceitos viageiros nesse caminho. Bjs

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  • novembro 25, 2013 a 12:13 am
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    Sabe que essa sua defesa de “não ao despertador nas férias” é tão sábia, mas tão sábia, que a gente aderiu a ela durante nossa última viagem? Foi depois de um comentário seu, falando exatamente isso. A gente já tinha a tendência de viajar mais devagar, sem querer correr pra ver tudo, mas de vez em quando ainda ligava o despertador. Aí percebemos que acordar naturalmente é uma das melhores coisas que você pode fazer durante uma viagem. Só não dá pra desligar o despertador em dia de voos. No resto, é a melhor decisão.

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    • novembro 25, 2013 a 12:54 am
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      Rafael, bacana que vcs adotaram e aprovaram! Despertador só com o extremamente inevitável mesmo, que seriam os voos/trens/ônibus e algumas experiências únicas como ver o nascer do sol em algum lugar especial, etc. Fora isso, abolimos. É uma chatice que a gente ama esquecer que existe quando esta de ferias!

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      • dezembro 12, 2013 a 10:25 am
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        Kkkkk, não sei se consigo aderir a essa defesa!!! Gosto de acordar cedo e se deixar pra dormir, acordo as 11 da manhã!!!

        Juro que vou tentar!!

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        • dezembro 12, 2013 a 9:23 pm
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          Tenta e depois me conta. É um alivio, sensação de férias de verdade 🙂

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  • agosto 24, 2015 a 6:14 pm
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    Lili, amo seu blog S2 e quando comecei a ler esse post, repensei algumas escolhas de viagens que fiz tb…
    Mas quando li sobre a “gincana” kkk lembrei do meu namorado dizendo que ao invés de férias, ele tinha se alistado para o exército nazista, com horários e regras pra tudo…
    Fiquei pensando naquele encontro super bacana que a gente teve lá no St George’s, que todo aquele meu control freak de sempre me deixava perder momentos super bacanas, podendo aproveitar a vida sem pensar em horários… naquele dia, em resumo ao fim não tomamos mais cervejas com vc e perdemos um bom papo e ainda chegamos correndo pra ver o Fantasma da Opera – eu fiquei tão maluca com horários que passei mal e passei o tempo todo no banheiro.
    Daquele fim de semana em diante, nossa viagem foi diferente, nada de despertador e checklists do que ver, e aproveitamos muito mais!

    Estamos nos aproximando da próxima viagem e eu não estou que nem maluca lendo tudo, quero aproveitar o tempo que tenho pra andar, curtir… Já me bastam as planilhas do trabalho, as regras e a rotina. Tudo com equilíbrio realmente faz mais sentido né? Fiquei apaixonada pelos posts da Albânia e a única listinha que tenho é dos destinos futuros 🙂 ela já entrou nas possibilidades…

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