O dia em que eu virei britânica

Era 2012 e eu já estava na Inglaterra há muitos anos. Eu e o Klaus viemos juntos de Vitória para Londres numa vontade mudar de vida, e acabou dando certo. Fomos ficando, ficando e o que era para ser uma vida temporária, de 3 ou 4 anos, virou 11 e cá estamos nós, sem planos para voltar, adaptados e felizes(quer saber mais, clique aqui). O Klaus tem cidadania alemã, nós éramos namorados e nos casamos, e assim ambos vivemos legalmente na Inglaterra. Antigamente, eu tinha um visto de membro familiar com validade de 5 anos, que estava atrelado ao Klaus obviamente. Depois desse tempo, eu peguei um outro visto, esse sem validade, chamado Indefinite leave to remain, que me dava o direito de viver pra sempre aqui. O direito não expira, mas o documento sim, então eu teria que renovar esse documento a cada 10 anos. Assim como teria que andar com multiplos passaportes a cada saída do Reino Unido, já que o tal visto ficava carimbado no passaporte brasileiro que vence a cada 5 anos. Sem contar que as leis mudam demais aqui, a coisa está cada vez mais apertada para estrangeiros, e vai saber o que não mudaria para mim com o tempo?  Então depois de 1 ano com o visto vitalicio na mão, eu resolvi começar o processo para ter a cidadania britânica. Vejam bem, este não é um post para servir de modelo para ninguém pois as leis mudam TODA HORA, é só para contar a experiência! Eu fiz uma prova, que na época era só de conhecimentos gerais( e em inglês, naturalmente), e depois de passar comecei o processo. Mandei os documentos e paguei uma taxa de 800 e poucas libras. Pelo menos aqui você pode pagar o chamado Nationality checking service para algum orgao da “prefeitura” do seu bairro checar todos os seus documentos e mandar só as cópias, assim você não fica sem passaporte. Depois de um tempo recebi uma carta dizendo que poderia marcar a cerimônia de naturalização. Eu fiquei super feliz quando recebi, mas até então era só pela facilidade que um passaporte britânico me daria. Menos dor de cabeça para várias coisas, e só não ter que renovar o visto, andar com vários passaportes, etc.  já era um alivio. Sem contar que estava prestes a viajar e o passaporte britânico me isentava de visto em 3 dos 4 países visitados. Então fui a cerinmônia feliz e sorridente, mas aliviada por eliminar um pouco da burocracia da minha vida.

o dia em que eu virei britanica (4)

O que eu não contava, era que aquilo iria me emocionar. Antes de tudo você escolhe se irá jurar a Deus ou à Rainha. Escolhi Deus. Ao ver aquele monte de gente de vários países onde realmente não se tem oportunidade, eu já comecei a engasgar a garganta. Vocês não tem idéia da felicidade de algumas familias. Era bonito ver e pensar que aquilo para eles não era só um papel, mas o começo de uma nova vida. E de uma forma diferente mas igualmente importante, para mim também era. Antes da cerimônia, quando eu sentei no meu lugar e olhei em volta, um filme passou pela minha cabeça. Minha vida inteira, as razões que me trouxeram para Londres e principalmente as que me mantiveram aqui. As pessoas que me ajudaram neste país, e foram tantas, eu devia aquele momento a elas.  A cerimônia foi linda. Eu fiquei orgulhosa de fazer parte disso aqui, viu. Os ingleses tem um milhão de defeitos. Eu me irrito com vários desses defeitos todos os dias, eu não acho que a Inglaterra é um país perfeito. Mas eles sabem respeitar as diferenças, eles sabem simplesmente aceitar as pessoas do jeito que elas são ou não se incomodar com aquilo que não faz parte do mundo deles. E aquela cerimônia pra mim representou muito isso. A representante do consul, que é tipo um prefeitinho do bairro, falou lindamente, e nos fez sentir aceitos, bem vindos. Tanto que nem recusei a foto brega/clássica abaixo!

o dia em que eu virei britanica (5)

Naquela hora eu tive certeza que morar em Londres foi a decisão certa. Eu tinha aprendido a ser assim também, e não tinha Natal sem a família, nem as praias perdidas nos finais de semana que pagariam as lições aprendidas aqui nessa terra. Se um dia a Inglaterra roubou meio mundo e colonizou a outra metade, ela estava se redimindo dessa forma, um pouco a cada dia, dando espaço para todo esse povo que quer fazer parte dela. Se eu já me sentia londrina antes, aquilo tinha sido uma confirmação que sim, esse país me recebia de braços abertos. Aqui era o meu lugar também, eu podia abrir a geladeira, sentar no sofá e ficar à vontade. E me sentir londrina, não anula a minha brasilidade. Essa eu jamais perderei. Ao contrário, me faz sentir bem vinda sem que eu precise perder a minha essência. Eu posso ser eu, e ainda ser londrina/britânica, olha que bacana! Ao entregar o certificado em mãos para cada um, a representante do consul conversava, perguntava o que aquilo representava para nós, de onde a gente vinha, quanto tempo estávamos aqui e se a gente iria celebrar aquele dia. Eu não tinha planos para fazer nada, mas não teve jeito, saí para comemorar. E jamais vou esquecer o 19 de Setembro de 2012, o dia em que eu virei britânica.

Facebooktwittergoogle_plusmail

lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no “sobre” e escolha “sobre mim” na barra superior.

15 comentários em “O dia em que eu virei britânica

  • outubro 1, 2015 a 6:08 pm
    Permalink

    Que legal, Lili!!!

    Cê pira que até eu fiquei emocionada lendo? Concordo muito com vc: a Inglaterra está longe de ser perfeita, mas a forma como ela abraça as diferenças sempre me emociona. E além de tudo a pessoa sai por aí desfilando um passaporte vermelhinho… aiai… 🙂

    Bjo-bjo!

    Responder
    • outubro 2, 2015 a 1:16 pm
      Permalink

      E eu fiquei emocionada escrevendo,rs. Vejo gente reclamando do preço e do processo para se naturalizar e penso: caramba, os caras estão dando algo que muita gente se mata aí pra ter, e muitos países jamais dão essa oportunidade. Não que alguém seja melhor com o passaporte britânico na mão, ou com qualquer outro, mas é que o mundo tem suas chatices e algumas nacionalidades tem suas vantagens nessa parte burocrática. Enfim, eu acho incrível que a gente possa fazer parte do país de maneira tão democrática. É um presente!

      Responder
  • outubro 1, 2015 a 7:05 pm
    Permalink

    Parabéns Lili! Muito emocionante as suas palavras, espero em breve ter essa felicidade também! Beijo
    *-*

    Responder
    • outubro 2, 2015 a 1:17 pm
      Permalink

      Obrigada, Flávia! Que sua felicidade chegue logo e que o processo seja fácil e rápido para você também 🙂

      Responder
  • outubro 2, 2015 a 6:05 am
    Permalink

    Muito legal! Tem gente que reclama de ter que estudar e fazer essa prova, mas eu acho correto saber um pouco mais da história do país que está te recebendo de braços abertos! Na época que eu tirei a minha cidadania britânica era tudo mais fácil (1997). Só preenchi o formulário, fui no escritório de um advogado para fazer o juramento, enviei e também recebi o certificado pelo correio.
    Mas gostaria de ter paricipado de uma cerimônia assim. Me sinto londrina desde o dia que pus os pés aqui pela primeira vez, no dia 15 de julho de 1992 – as vezes acho que sou mais londrina que meu marido, que nasceu aqui. Quando eu casei (2000), já era britânica. Eu vim com visto de trabalho e tinha que renovar todo ano, mas depois de 4 anos recebi o definitivo e um ano depois pude fazer o requerimento pra cidadania! Mas, como vc disse, eles estão tornando as coisas mais difíceis pq muita gente “casava” só pra pegar o passaporte. Tinha gente que até pagava pra casar!
    Precisamos marcar algo um dia! Já conheci a Nah, o João e o Rafa. Faltam vc e a Helô, da galera que sigo pelos blogs, Instagrams e Snapchats da vida! Bjs

    Responder
    • outubro 2, 2015 a 1:19 pm
      Permalink

      Tenho alguns amigos que se naturalizaram assim como você, que moleza era hein. E tenho outros amigos que podiam ter feito há anos, com a mesma facilidade mas foram deixando e estão passando por todo o processo de hoje em dia. A tendência é dificultar mesmo, até pela quantidade de estrangeiros que chegam a cada dia. Temos que marcar sim! É sempre tão legal dar vida às arrobas! bjs

      Responder
      • outubro 3, 2015 a 6:13 am
        Permalink

        Estou indo pro Brasil semana que vem e volto no final de outubro. A Nah e o João estçao voltando hoje (acho), de repente a gente marca algo pro começo de novembro!
        Bjs
        Ah, tentei mandar euma mensagem pelo Snapchat outro dia, mas não consegui 🙁

        Responder
  • outubro 2, 2015 a 6:45 pm
    Permalink

    Vc sempre diz que o que eu falo não vale pq sou sua mãe, mas vc escreve tão bem, tão lindo, que emociona o leitor, mesmo os que não te conhecem pessoalmente. Acompanhei de longe essa saga e sei como isso foi importante pra vc, te amo, bjs

    Responder
  • outubro 3, 2015 a 11:26 am
    Permalink

    Nossa, até eu fiquei emocionada 🙂

    Espero ter essa felicidade em breve também, aliás, daqui uns 3 anos!

    Beijos!

    Responder
    • outubro 5, 2015 a 2:11 pm
      Permalink

      Que bom que consegui passa a emoção pela tela, Débora. Boa sorte no seu processo quando chegar a hora!

      Responder
  • Pingback: Outubro é o mês de comprar passagem! | 360meridianos

  • junho 29, 2016 a 11:24 pm
    Permalink

    Oi Liliana,
    Tenho te acompanhado pelo Snap e hj te achei no instagram e no Blog. 🙂 Que bonita sua história, me fez entender melhor sua indignação e tristeza com a situação atual daí. Sair do Brasil é uma ideia que está cada vez mais presente em minha cabeça e imagino que não seja nada fácil. Talvez um dia eu coloque isso em prática. Obrigada por dividir sua história e suas dicas! Bjs

    Responder
  • Pingback: Como consegui a cidadania britânica

  • novembro 10, 2017 a 10:42 pm
    Permalink

    Oi Lili, tudo bem??

    Posso te perguntar se você precisou renunciar sua cidadania brasileira nesse processo?

    Obrigada, e parabéns pela conquista!!

    Responder
    • dezembro 14, 2017 a 4:03 pm
      Permalink

      Ju, Nao precisei nao.

      Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *