Sobre chegadas e partidas

Esta semana eu voltei do Brasil. Passei menos de 3 semanas lá, e fui em pleno carnaval. Eu 20 dias eu fui ao Rio, Bahia, Vitoria e Brasilia. Como você pode imaginar, não tive tempo de fazer muito. Foi uma gincana maravilhosa. Foi muito diverito, mas cansativo ao extremo. Mesmo cansada, acabada e destruída, eu estou com saudade. E me pego desejando ter extendido essa loucura por pelo menos mais 20 dias. Doce ilusão que tempo a mais mudaria essa saudade, pois toda vez que eu volto, fico borocochô por pelo menos uma semana. Isso pode ser surpresa para quem só lê o blog ou me conhece superficialmente, afinal de contas eu faço tanta propraganda do meu amor por Londres que fica dificil entender. Mas esse não é um sentimento isolado, muito expatriado sente isso nas suas idas e vindas(tanto que esta semana a Luiza do 360 meridianos falou sobre isso neste post e a Natasha do Pra Ver em Londres escreveu também sobre aqui!)

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Logicamente existem pessoas diferentes. Eu tenho amigos brasileiros que moram fora e vão ao Brasil quase que por obrigação,e contando os minutos para voltar. Também tenho amigos que fizeram raízes em tantos lugares diferentes, que passaram a infância pulando de cidade em cidade, país em país, e por por isso alguns deles não compartilham desse sentimento. Mas a grande maioria fica como eu na volta. Amoadinho, questionando se as razões que nos mantém aqui são relevantes ou se são mesmo razões.  Quando a gente sai do lugar de onde veio, nem tudo sai com você. Um pedaço da gente fica. E esse pedaço não é só família, amigos e o lugar em si, é um pedaço seu mesmo, do que você é. A gente precisa se adaptar ao novo, e por isso a gente muda, a gente cresce. É a lei da vida. E desde que mudei para Londres eu me sinto uma nova pessoa. A minha essência permanece, mas seria impossível viver tanta coisa diferente, num mundo diferente, com pessoas diferentes e continuar a mesma. E isso acontece de uma forma muito brusca, porque imagina mudar de país, de idioma, de circulo de amizade, de emprego, de estado civil, tudo ao mesmo tempo? Mas por incrivel que pareça, pelo menos na minha vida, foi uma mudança brusca mas natural. Eu não me vi pensando: preciso mudar isso em mim, preciso aprender aquilo, etc. Exatamente pela velocidade com que as coisas aconteceram, quando pisquei os olhos, eu era uma nova Liliana.

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E nem tinha me dado conta disso, foi algo que simplesmente aconteceu.  Eu teria mudado muita coisa se tivesse ficado em Vila Velha, sem dúvida, porque isso se chama amadurecimento. Mas seriam outras mudanças. Já a nova Liliana, além de sentir saudade da mãe, do pai, das primas, do mar, dos amigos, também sente saudade daquela velha Liliana. Aquela que nunca mais vai existir. Então é muito louco como fazer essa conexão, esse touch down no lugar onde você cresceu é importante. Parece que coloca a gente no eixo de novo. É assim que eu me sinto. Então quando eu vou visitar a minha mãe e dou uma volta na praia de Itapoã, onde eu cresci, isso não é só uma voltinha qualquer. Eu passo por uma espécie de túnel do tempo! Em uma hora eu vejo um filme passar pela minha cabeça, vou da infância até a minha saida do Brasil, e no final do passeio parece que eu estou no meu eixo novamente. É um reencontro comigo! Estar em família, com as pessoas que me conhecem de verdade, pessoas com quem eu cresci também proporciona isso. É como se eu fosse eu in natura, 100%, crua. Não que eu use máscaras fora dali. Mas como disse, sou uma nova pessoa. E com essa pessoa madura, vieram novas atitudes, e uma nova maneira de encarar a vida. Mas ali entre os meus amigos antigos e entre a minha familia eu não preciso ser forte o tempo todo porque tenho eles comigo. Eu não sei se uma pessoa que morou a vida inteira perto da familia e dos seus amigos de infância vai conseguir alcançar esse texto, nem mesmo se muita gente que está longe dos seus vai se identificar ou concordar. Mas acho que quando estamos longe de tudo isso que por um tempo é o nosso alicerce, a gente se vê sozinho. Sozinho não num sentido ruim, mas no sentido que a sua vida depende só de você. É um sentimento assustador, mas que ensina muito, pelo menos me ensinou demais.

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Não tem a sua mãe para buscar seu filho na escola se você e o marido não puderem. Não tem sua irmã para ajudar a encaixotar a mudança. Não tem a prima para fazer seu bolo de aniversário. Não tem o amigo do primo do seu irmão para quebrar aquele galho quando você precisa. Não tem nem um amigo para recomedar aquele medico maravilhoso que ele vai desde criança quando você precisa de um especilista. É uma vida completamente nova, que você vai construindo. Que no futuro vai deixar novos alicerces e novas lembranças, mas tudo isso leva muito tempo. Enquanto isso, nessa nova vida, a gente só é um grãozinho de areia. Ainda mais numa cidade enorme como Londres. Então tudo isso faz a gente ter uma visão muito diferente da vida, e uma atitude mais madura perante tudo. O que é ótimo! Mas quem não tem vontade de sentar no colo da mãe e chorar às vezes? Quem não tem vontade de ter alguém para ajudar no dia a dia ao invés de fazer tudo por sua conta? Eu tenho! Quem não tem vontade de comer um bolinho na casa da avó depois de um dia de trabalho, e sentir aquele conforto que só uma avó é capaz de dar?

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Então a gente vive com uma carga diferente da que viveria se estivesse confortavelmente perto da familia e de amigos que te conhecem(e reconhecem!). Isso é fato. Não sei se quem constituiu familia com um parceiro da cidade ou país onde vive senti isso. Porque há um certo alicerce ali.

Mas para mim, não tem nada mais confortante para mim do que visitar a minha cidade, a minha familia, os meus amigos que deixei no Brasil. Eu volto mais forte, mas ao mesmo tempo mais eu. Aliás, talvez seja isso. Talvez a tristeza de deixar o Brasil seja não só a saudade da família, dos amigos e do lugar. Mas seja a saudade de nós mesmos. Aquele “você” que não vai existir de verdade nunca mais. Mas que você consegue reconhecer, relembrar e reviver um pouco quando está no “seu lugar”.

 

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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no "sobre" e escolha "sobre mim" na barra superior.

10 comentários em “Sobre chegadas e partidas

  • fevereiro 25, 2016 a 9:46 pm
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    Oi Liliana! Hoje procurando no Google por dicas de snaps de viagens cheguei ao seu blog, o 1º da busca. Assistindo seu snaps ouvi você falando que é de Vitória, eu também sou! Entrando no Instagram do blog ví que temos vários amigos em comum, sou cunhada da Sanny do Zemaria. Mundo pequeno rs
    Parabéns pelo blog e pelos ótimos snaps! 🙂
    Beijo

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    • fevereiro 29, 2016 a 3:41 pm
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      Gente, que coisa legal Amanda! Adoro a Sanny, ela e o Marcel já ficaram muitas vezes aqui em casa, e nos já visitamos os dois em Berlim também. Mundo pequeno! Seja bem vinda aqui. Fico feliz que esteja curtindo 🙂

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  • fevereiro 26, 2016 a 2:28 am
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    Ai Lili….voce me traduziu! Estou indo dormir de cara inchada e banzo total!

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    • fevereiro 29, 2016 a 3:33 pm
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      Dani,
      Que bom que consegui te traduzir tb. Isso só mostra que você não está sozinha! beijo grande

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  • fevereiro 26, 2016 a 6:36 pm
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    Lindo texto Liliana, eu às vezes penso muito nisso, é fácil te entender, pode ser apenas alguns dias, mas dá vontade de voltar pra valer, e olha que eu tô morando fora a bem menos tempo que você.
    Gosto muito do Brasil e espero voltar algum dia pra morar um tempo.
    Não esquece dos vlog’s te dou a maior força, vai bombar, hehehe
    Beijos

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    • fevereiro 29, 2016 a 3:32 pm
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      Flávia, obrigada por acompanhar e curtir o que eu escrevo e falo! rs Beijão, querida!

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  • fevereiro 28, 2016 a 8:04 am
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    Lili, você resumiu nesse texto o meu sentimento. No fundo sempre foi o meu dilema: voltar ou não voltar? Vamos fazer alguma coisa qnd vc puder! Beijos

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    • fevereiro 29, 2016 a 3:23 pm
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      Que bom que nao sou a única! Vamos marcar algo sim, Fabi!bjs

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    • abril 18, 2016 a 1:27 pm
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      Pois é, até quando a gente achar que deve né? O importante é ser feliz, e isso eu acho que todos somos nas nossas vidinhas. Acho que a hora de partir é aquela que a gente já não se sente bem onde vive! bjs

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