Reino (Des)Unido

Hoje o dia amanhaceu triste.

Eu dormi num casamento feliz e acordei para descobrir que levei uma baita chifre. Um casamento de respeito às diferenças, amor e carinho. Acordei descobrindo  que nesse casamento de 12 anos, meu parceiro não era quem eu pensava, o amor não era tudo aquilo, e as nossas diferenças tem um peso muito maior do que eu imaginava.

É assim que eu me sinto. Hoje o Reino Unido resolveu sair da União Européia. E essa decisão foi em sua grande maioria definida pela questão dos imigrantes no país. O meu casamento com o Reino Unido subiu no telhado. As nossas diferenças são maiores que a tolerância. Quem diria.

Não, eu nao estou exagerando. Se você acha isso, por favor não me conte. Não hoje. Essa é uma decisão que afeta a nossa vida aqui em tantos aspectos, mas eu não vim fazer uma dissertação econômica. Eu até poderia porque mesmo pelo lado econômico a saída do Reino Unido é muito ruim. Mas eu quero falar de sentimento.

Big Ben

Imaginem eu que sempre vendi o peixe de “estou aqui porque sou aceita como sou, porque as pessoas aceitam as diferenças das outras, porque é um país onde ser minoria não é um problema.” Imaginem que essa é a razão que me manteve aqui até hoje. Lógico que a economia, a segurança,  e os outros fatores também são determinantes na minha permanência no Reino Unido. Mas ser aceita é a primeira delas, sempre foi. Eu fui dormir num país que me aceita, e acordei num país onde o preconceito é aplaudido. Onde um filhote de nazista comemora a “independência do Reino Unido”. Não é exagero.

Como eu não vi isso antes? Como eu não percebi com quem eu realmente estava lidando? É esse meu sentimento. Ache você exagerado ou não, pessimista ou não, é isso aí.

Eu estava aqui no dia das bombas no metro da cidade. E por algum tempo eu andava olhando como se todos fossem suspeitos. “Aquele ali pode ser terrorista, aquela ali também.” Pensava eu. Hoje eu me pego analisando as pessoas e pensando” será que essa pessoa votou out, será que ela não me quer aqui?” . Eu estou levando para o lado pessoal, porque para mim é pessoal. Mesmo com a cidadania britânica, eu sou imigrante. Sempre serei. E o resultado de hoje só confirma isso. É pessoal. O voto foi baseado numa questão de pessoas, muito mais do que nos fatores politicos ou econômicos.

 

london open house (2)

Tanto é que regiões que são reconhecidamente de esquerda votaram para sair, e algumas regiões consevadoras votaram para ficar. Isso não faz nenhum sentido no ponto de vista político, porque a questão foi apartidária, foi pessoal.

Eu jamais imaginei escrever um texto asssim, justo eu que sempre dividi minha paixão pela cidade, meu amor e encantamento por Londres. Hoje me vejo olhando sem nenhuma admiração pela cidade que me acolheu.

Eu não sei o que está acontecendo com esse mundo. Eu não sei em que acreditam as pessoas que torceram e votaram pela saída do Reino Unido da comunidade Européia. Mas agora todos sofreremos as consequências. Eu não tenho dúvida que econômicamente o país ira se reeguer, casa haja realmente uma crise(o que é provavel). Seguindo a metáfora inicial, é como num casamento. Ninguém fica mais rico num divórcio. Na divisão de bens sempre há perda. Mas essas perdas se ajustam com o tempo.

Dificil mesmo é saber como fica o resto, aquele que não se mede em números e moedas.

Great(ish) Britain terá que aprender a conviver com essa marca. Esse novo Reino Unido vai ter que aprender a viver com o legado de David Cameron. E eu também.

 

 

Leia também a opinião da Heloísa Righetto sobre o assunto. A opinião é a mesma, a tristeza também. 

 

 

 

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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no "sobre" e escolha "sobre mim" na barra superior.

19 comentários em “Reino (Des)Unido

  • junho 24, 2016 a 3:29 pm
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    Ai Lili…nem sei oq falar…mto triste 🙁
    Estamos juntas

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    • junho 30, 2016 a 10:24 am
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      É Lia, muito mesmo!

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  • junho 24, 2016 a 3:52 pm
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    Querida, é um belo testemunho…
    Infelizmente o mundo globalizado vai impondo a tacanhez da maioria das pessoas. Esse resquício de uma Inglaterra “imperialista” e auto-suficiente, deve estar no subconsciente desses que votaram pela saída. A Escócia já apontou que pode se desligar do Reino Unico, a Irlanda parece que também. Que confusão danada, que equívoco histórico. Londres é linda, mas dá pra entender bem sua decepção. Por aqui na Terra Brasílis está pior ainda, com o rabo correndo atrás do cachorro direto e reto. Está difícil conviver com tantos absurdos diários. Obrigado por sempre compartilhar boas opiniões. Rogerio Santos , de São Paulo.

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    • junho 30, 2016 a 10:24 am
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      Obrigada, Rogério. Parece que o mundo está do avesso esse ano! Cruz, credo.

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  • junho 24, 2016 a 4:39 pm
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    Liliana, gostei muito do seu texto. Também sou brasileira, moro em Londres há 14 anos, e também tenho cidadania britanica. Estou inconformada, e me sentindo como uma “unwanted guest”… mas vale a pena lembrar que em Londres, 60% dos eleitores votaram para ficar na UE. Isso mostra que nossa cidade, que carrega esse país nas costas, reconhece a importancia da diversidade e é justamente isso que faz Londres ser a “global powerhouse” que é. É muito triste, vai ser um divórcio demorado, complicado e muito caro. A nossa geração, e as mais novas, vão pagar por isso, infelizmente. 🙁

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    • junho 30, 2016 a 10:27 am
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      É Beatriz, acho que muitos de nós imigrantes está nos sentindo assim mesmo. Como se estivessemos no lugar errado, como se não fossemos bem vindos. Eu honestamente acho 60% muito pouco para uma cidade como Londres. Esperava que fosse como a minha amada Lambeth, quase 80%. Mas agora não dá para ficar só chorando. A gente precisa saber viver melhor com isso, ir as para as ruas se for preciso, fazer o que der para melhor dentro desse contexto triste.

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  • junho 24, 2016 a 7:04 pm
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    Ei filha, lembro bem da sua alegria quando conseguiu a cidadania britânica, confesso que até fiquei meio enciumado com tamanho orgulho, mas aceitei ao dialogar com você e ouvir o que essa nova situação representava para sua vida.
    Acredito que q essa insatisfação não é só para os “estrangeiros” mas principalmente para o verdadeiro Britânico. Chorar, lamentar, de dor e tristeza faz parte da vida, do ser humano.
    Como vc. É uma fortaleza não vai ficar triste por muito tempo, saiba que a tristeza enfraqueça a nós e os outros ao ponto de ficarmos inertes e isto não pode acontecer vc. fortalece quem está ao seu lado e vice e versa.
    Esqueça do que não está ao seu alcance, cabe a nós mesmo assumirmos o controle do dia de amanhã, tome em suas mãos as rédeas desse animal bravo que foi a escolha feita pela (manhoriaminoria). O destino você já dominou, continue sonhando e viva os seus sonhos.

    E você, pode enfrentar esse novo desafio de tornar realidade seus sonhos.

    Você filha querida é cidadã do mundo.
    “Amar demais, querer demais, fazer demais, chorar demais, tudo demais é veneno!
    Um dia tudo passa, por que afinal nada dura para sempre! ”
    “Não vale a pena ficar sonhando e se esquecer de viver, o tempo tem um jeito de mudar as coisas, a vida é feita de momentos, PASSADO, passou.
    As coisas só vão mudar a partir do momento que você reconhecer e aceitar que não adianta correr atrás do Vento”.
    É tão difícil a gente caminhar
    Quando uma estrada não está mais lá
    E ter que construir o próprio chão
    Com as incertezas que tiver
    Em cada curva pra lá e pra cá
    Qualquer desvio pode transformar
    A ponta de um universo em explosão
    Coisas prum futuro que vier
    E tudo que foi dor um dia
    No outro dia será dia de continuar
    Caminhado sob o sol
    Até o amor se reinventar
    Vida que a gente aprende
    Tudo o que acontece de ruim é para melhorar
    Tudo o que acontece de ruim é para melhorar
    É para melhorar
    É para melhorar Paulinho Moska
    ETA MUNDO BOM

    Te amo filha.
    Beijos do pai

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    • junho 30, 2016 a 10:28 am
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      Paizinho, você é lindo! Que mensagem linda. Te amo demais.

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  • junho 24, 2016 a 9:43 pm
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    Oi Liliana, sinto muito e me solidarizo com a tua angustia nesse momento. Já morei em Londres e me sentia orgulhosa de estar num lugar que me aceitava tão bem me fazendo acreditar que eu era parte daquilo tudo! Difícil acreditar no que está acontecendo.
    Vamos mais do que nunca acreditar que dias melhores virão…
    Abraço de Firenze,
    Denya

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    • junho 30, 2016 a 10:30 am
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      Acho quem já morou aqui entende bem o que eu estou sentindo. É uma sensação de ter vivido uma mentira até agora. Enfim, espero que passe esse sentimento. bjs!

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  • junho 25, 2016 a 2:03 am
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    Depois do choque, raiva, tristeza, vem sempre a minha vontade de ver uma luz no fim do túnel. O plebiscito não é legally binding, então não significa, necessariamente, que o UK vai sair da Europa amanhã, daqui a dois anos ou ever. Ele pode significar uma renegociação dos votos de matrimônio, talvez. One can only hope. Vai que essa gente estúpida que agora diz ter se arrependido queira fazer terapia de casal? Vai que os velhos ranzinzas racistas decidam agora pensar nos filhos? O amor ainda pode vencer. Força, aí. Beijo

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    • junho 30, 2016 a 10:35 am
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      Giu, pelo andar das coisas não tem volta. Eu realmente não creio que eles irão contra a decisão do povo, e acho inclusive que isso seria pior. Vai incitar mais ódio, e de uma certa forma abre precedente para algo assim no futuro. Acho que agora o jeito é a população pressionar o governo para os termos de saída não prejudicarem tanto o UK perante a União Européia. Ninguém é burro e money talks quando o assunto é política. Então espero que por isso a saída seja menos traumática do que a gente está achando. beijo beijo

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  • junho 25, 2016 a 8:08 pm
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    Muito bom seu texto, parabéns! Morei aí em Londres, o que eu mais gostava da cidade era, justamente, o fato de não me sentir estrangeira, diferente de outras cidades europeias que morei e moro. E eu também sempre alardeava isso sobre os ingleses. Você descreveu os sentimentos de todos, acredito, com perfeição! E lindas as palavras do seu pai, hein? Família iluminada! Fiquem com Deus!

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    • junho 30, 2016 a 10:36 am
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      Pois é Cláudia, quem já sentiu o gosto de estar aqui como moradora da cidade sabe bem o que estou sentindo agora! Meu pai foi lindo mesmo, me senti mais confortada 🙂 Obrigada!

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  • julho 1, 2016 a 2:47 am
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    Olá, acho que está sendo o primeiro post seu que estou lendo… eu estou amando é interessante poder entender e compreender a situação que vocês brasileiros estão vivenciando nesse momento. Venho acompanhando por cima cada noticia aí da Europa, afinal acho que ela faz parte de mim desde quando coloquei os pés pela primeira vez (Junho 2015- Eslováquia) Bom, na verdade, tenho um sonho muito grande em morar fora do Brasil namoro um Europeu a quase 4 anos e como agora finalizo o curso superior ( jornalismo) fim do ano é uma ótima oportunidade de criar asas. Voltando ao assunto… com toda certeza essa decisão de (BREXIT) que saiu vencedor com 51,9% dos votos foi um choque muito grande, as causas serão sem sombra de duvidas gravíssimas… é muito triste saber que preconceito infelizmente ainda é um mal que aflige não somente uma sociedade e sim o mundo inteiro. Muito força e coragem para vocês aí.. bjs

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    • julho 12, 2016 a 10:00 am
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      Obrigada, Indaia!

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