Por que morar fora pode ser transformador?

 

Quando eu mudei para Londres, era uma típica  menina de classe média brasileira da minha idade. Meu namorado músico era a única coisa mais “diferente” na minha vida. E para não fugir do padrão nem no objetivo, vim para trabalhar, aprender inglês e juntar dinheiro. Mal sabia que o maior bem que eu iria ganhar com essa mudança não era o que me trouxe aqui. Eu mudaria muita coisa dentro de mim e me transfomaria numa outra Liliana.

 

Eu aposto que muita gente que mora fora do Brasil ou de onde nasceu/cresceu fala isso também. Que a vida fora do seu país/cidade te transformou. Mas o que acontece com as pessoas para elas mudarem? Qual a formula mágica?

outono em Londres (8)

Não posso responder isso sem analisar minha história. Acho que ela reflete a de muita gente também. Fui criada num ambiente que eu não escolhi. Isso não é ruim, pelo contrário. Amo minha família e amigos, mas não escolhi muitos deles. A vida me deu minha família, que é sim maravilhosa. A vida me deu amigos incríveis, que conheci no colégio onde estudei, o bairro onde morei na infância, a faculdade que cursei. Muitas deles a vida me deu sem que eu nem precisasse escolher(obrigada, vida!).

E aí que a nossa história vai tomando rumos que estão muito relacionados a essas pessoas, e a esse esquema de vida. A gente vai fazendo muitas escolhas baseadas nisso. Muito do que eu gostava, fazia e pensava era o fruto do meio com uma mistura do que eu realmente gostava. A maturidade foi me ensinando o que escolher com o tempo, mas nada me mostraria tanto quem eu era de verdade do que me afastar completamente das minhas influências.

 

E aí que mora toda a transformação de quando a gente sai de casa para um lugar completamente desconhecido. Seus novos amigos, sua nova influência, o bairro onde você vai morar, os lugares que vai frequentar serão escolhas 100% suas. Você perde o compromisso com algumas convenções, e perde o peso de ser alguém que já esperam que você seja.  Talvez isso esteja relacionado à maturidade, mas acho que eu demoraria mais tempo para conquistar a Liliana de hoje se ainda tivesse a vida de antes.

Outra coisa que transforma é a vulnerabilidade que o novo proporciona. Passei por várias situações muito difícies em Londres. Jamais me senti fraca diante delas, sempre lutei. Mas me vi vulnerável milhões de vezes. Tanto nas coisas mais complexas, quando me vi executando tarefas que jamais imaginei fazer, até nas coisas bobas do dia a dia. O simples fato de ir ao médico especilista pode ser um desafio. Ir a qual se eu não conheço nenhum? Cadê a prima da minha amiga para indicar aquele dermatologista? Cadê o melhor amigo para dar uma maozinha na mudança? E minha amiga que sempre organiza os eventos para ajudar no meu aniversário? E minha prima para buscar uma encomenda? Não há! Isso tudo é algo que você vai construir com o tempo. Mas enquanto você não constrói você se vê pequeno. Não no sentindo ruim da coisa, no sentido do aprendizado. Não há ego que resista. Você aprende a olhar para dentro de você, do que você é realmente, o que realmente quer da vida e como quer.

Oxofrd (21)

Hoje já não me vejo mais como uma página em branco. São 12 anos de Londres. Mas tudo isso foi conquistado por nós; eu e o Klaus. Somos completamente responsáveis pelos amigos que temos, pelo circulo de amizade que criamos, pelo trabalho que temos, pela vida que levamos, pelo que cativamos. O que somos foi uma escolha e responsabilidade nossa. Sei que a maturidade me mudaria de qualquer maneira. Mas não posso ser ingrata.

Obrigada Londres por ter me dado a Liliana de hoje. E obrigada Liliana de ontem por não ter resistido!

 

 

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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no “sobre” e escolha “sobre mim” na barra superior.

17 comentários em “Por que morar fora pode ser transformador?

  • agosto 30, 2016 a 4:30 pm
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    Excelente reflexão, amiga. Não conheci a Liliana de antes, mas posso dizer que admiro muito a Liliana de hoje. <3 Então… Obrigada, Londres. hehe
    Beijão!

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    • agosto 31, 2016 a 10:50 am
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      Poxa, obrigada Nahzita! Fico muito lisonjeada com sua admiração. Londres não só me deu uma nova Liliana como novos amigos maravilhosos! Mil obrigadas a esta cidade!

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  • agosto 30, 2016 a 4:45 pm
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    Obrigada Londres por ter me dado a Liliana de amiga!!! E obrigada Lili por fazer a minha Londres melhor

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    • agosto 31, 2016 a 10:51 am
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      Ah Helô, sou grata pela sua amizade também. Obrigada internet e Londres por melhorar a nossa vida. Beijão

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  • agosto 30, 2016 a 5:54 pm
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    Concordo muito com vc, Lili. É muito isso: poder ser aquilo que as pessoas não necessariamente esperam de vc. Costumo dizer que sou uma pessoa melhor quando tô viajando simplesmente pelo fato de que não esperam de mim que eu seja brava ou inflexível. Sou o mais flexível dos seres e a mais boazinha do universo quando estou viajando – ou morando em outro lugar. Dá pra analisar muita coisa por aí, mas eu simplesmente gosto mais de mim quando estou fora deste ambiente que inclui o meu trabalho/família.

    E morar fora te dá esse tranco que a vida não perdoa, né? Eu acho que faz da gente seres humanos melhores, de uma forma geral. Nunca vou me esquecer do encanador que eu conheci no Tinder e que me mostrou que essa visão de que gente do terceiro setor é iletrado é uma balela sem tamanho. Pequenas coisas que mudam nossa atitude diante de quase tudo na vida, não é mesmo? rs

    Que bom que Londres e a internet (melhor pessoa!) me trouxeram vc pra alegrar, iluminar e embelezar meus dias. Adoro vc, sua linda!

    Beijo!!

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    • agosto 31, 2016 a 10:59 am
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      Marla meu amor, tudo verdade. Sou um ser humano melhor por ter experimentado um lado diferente da vida, por ter me visto menor do que eu achava que era. A gente não é nada, todo mundo é igual. Mas aparece namorando um encanador na sua turminha para ver. E longe dos julgamentos a gente consegue enxergar melhor isso, né não? Londres e internet, melhores pessoas. Obrigada por ter descoberto meu blog e saido da internet para o meu mundo real. beijo bem grandão!

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  • agosto 30, 2016 a 7:04 pm
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    Amei, Liliana. Se eu escrevesse bonito assim eu teria escrito uma coisa parecida se me pedissem pra eu descrever minha história em Londres. Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante. Beijao!

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    • agosto 31, 2016 a 11:37 am
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      Ah, obrigada Thais. Eu escrevi e reescrevi esse texto porque é dificil passar para o papel algo tão pessoal. Mas fico feliz que tanta gente tenha se identificado!

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  • setembro 2, 2016 a 6:02 pm
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    Eu sempre olho para quem eu era no passado e penso: céus, como eu era outra pessoa. As vezes, eu chego a nem sentir saudades das coisas, porque eu olho para algumas coisas e me pergunto se aquilo era outra vida. Seu texto resumiu bem esse sentimento. Eu nunca tinha pensado isso claramente sobre as escolhas de amigos e lugares, só que isso me incomodava quando eu morava em Belo Horizonte e me fez querer sair de lá. Hoje, se eu voltasse, mesmo não tendo morando 12 anos fora (caramba!), acho que seria bem diferente.

    bjs

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    • setembro 5, 2016 a 10:29 am
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      Luiza, acho que ficar 2 ou 12 anos fora não faz diferença porque creio que essa mudança esteve sempre lá, esperando uma oportunidade para se libertar. Talvez ela se intensifique com o tempo e só. Eu me pergunto como seria se voltasse, em vários aspectos. Fico feliz que tenha gostado!

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  • setembro 2, 2016 a 6:56 pm
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    Ah….o que uma mãe coruja pode dizer depois de um texto desse?!?! Sinto um enorme orgulho de ter uma vida como vc, posso ratificar cada palavra pq conheci a Liliana de antes ( q eu já amava) e admiro e amo muito a Liliana naxqual se transformou. Tb sou grata a Londres por te-la recebido e transformado e à internet por encurtar a distância física q há entre nós aliviando muitas vezes a enorme saudade q toma conta de mim. Te amo, a Liliana de ontem, hj e de amanhã, vc sempre será o meu maior tesouro

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    • setembro 5, 2016 a 10:32 am
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      Olha eu toda boba aqui! Amo a Fátima de ontem e de hoje tb!

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  • setembro 6, 2016 a 7:54 pm
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    Me identifiquei demais com seu texto. Londres também me transformou muito, e espero que pra melhor! E é bom demais começar uma história num papel em branco, num lugar onde ninguém te conhece, onde você não deve nada pra ninguém…
    Que continuemos nos transformando em pessoas melhores!

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    • setembro 11, 2016 a 10:57 am
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      Que bom, Leticia! Que a gente nunca deixe de aprender com a vida!

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  • setembro 11, 2016 a 10:41 am
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    Oi Liliana! Nunca comentei aqui, mas adoro teus posts assim reflexivos, como esse aqui, o último sobre coisas pra não fazer na Inglaterra, aquele sobre Malta e como não conseguiremos conhecer um país em duas semanas…
    Estou aqui há tão pouco tempo, mas já me identifiquei muito com o teu texto tão bem escrito. Na minha opinião, morar fora é ao mesmo tempo uma grande lição de humildade, porque como vc disse a gente se sente pequeno, e uma lição de força e fonte de empoderamento, porque se você supera os perrengues da vida diária e de tentar aos trancos e barrancos conquistar o seu espaço, especialmente numa cidade em que o mundo inteiro quer estar como nós, você consegue o que quiser! Uma vibe meio “if I can make it there, I’m gonna make it anywhere”, né?!
    Beijo e parabéns pelas conquistas desses 12 anos!

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    • setembro 11, 2016 a 1:04 pm
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      Gabi, Obrigada! Comente sempre que quiser, adoro comentários. Aliás é um das minhas partes favorita do blog! E sim, eu acho que a gente não só aprende com as coisas novas mas também com a nossa força em relação a essas coisas que nem sabíamos ter! beijo beijo

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