Viajar me fez menos vaidosa

Era o dia 47 da minha viagem na America do Sul. Eu vinha de uma bateria de ilhas maravilhosas, biquini, sol, mar, areia e picada de mosquito. Depois de um banho no banheiro ao ar livre no parque Tayrona eu vi um espelho. Resolvi olhar. Não me via há dias. Que susto! Eu tinha mais espinhas no queixo do que um queixo. Umas duas manchas na pele que não estavam ali antes. O cabelo parecia um ninho de mafagafinhos. Voltei para minha rede onde eu dormiria aquela noite e tomaria mais 500 mordidas de mosquito. A perna voltou marcada. Não só de mosquitos, mas estava marcada com uma mancha preta que eu ganhei quando machuquei a perna na escada do beliche do hostel em Medellin. Mais de um ano depois, a marca segue aqui. Ja na minha rede, contei para a minha amiga do susto e rimos muito. Curioso que há anos aquilo teria me abalado. Naquele momento eu só consegui achar engraçado o fato de não ter quase me reconhecido de relance e ter tomado um susto com a própria cara. E conseguia estar feliz de estar bronzeada como não me via há anos. Que linda era minha pele mesmo cheia de espinhas, mas toda caiçara de novo.

Claramente preocupada com as picadas de mosquito 

Naquela altura minha mala praticamente só havia lingerie e roupas de frio limpas. Fazia 40 graus a sombra e a minha volta pra casa era no dia seguinte. Não fazia sentido lavar roupas agora. A gente dava dois passos em Tayrona e parecia que tinham jogado um balde de agua na gente. Era uma umidade surreal, fazia muito calor. Eu escolhi a  roupa que estava menos mal e usei na minha ultima noite de Colômbia. Enquanto a rede balançava e eu tentava dormir, pensei o quanto aquilo seria impossível para a Liliana de 15 anos atrás. Viajar tinha me tornado uma pessoa menos vaidosa. Ou talvez mais real. Não foi so aquela viagem. Eu tinha uma bagagem grande de historias que me fizeram chegar nesta pessoa de hoje. Também não pensem que eu virei um bicho grilo. Na minha mala ainda tinha maquiagem, cremes e ate um salto, não muito alto, mas um salto! Usei praticamente tudo que levei(inclusive o salto!). Só que estar arrumada não era uma prioridade. Me sentir bonita significava algo bem diferente do que era antes, principalmente naquele contexto ali. Eu me sentia linda mesmo com aquele monte de espinha, sem nenhum artificio para melhorar o que não estava tão bom, porque eu estava verdadeiramente feliz. E não estou falando de padrão de beleza, de nada relacionado a isso. Eu sei que não estou fora dos padrões, não quero roubar a luta de ninguém, falo apenas dessa liberação de uma vaidade excessiva e de quanto me libertar disso me fez bem.

Kilinhos a mais: check, Cabelos revoltados: check, felicidade: check

Voltei a ter uma rotina ha pouco mais de 1 ano. Com tantas loucuras e coisa boas que 2017 me trouxe, morar em Barcelona foi uma delas. Mais uma mudança. Eu perdi as contas de quantas vezes fiz e desfiz mala no ano passado. Quantos voos, quantos sofas, quantas camas e quantos hotéis. E na minha ultima mudança eu me dei conta do que a viagem ja tinha me mostrado: eu tinha muita coisa. MUITA mesmo. Eu não precisava de metade daquilo. Muitas das minhas coisas acumuladas desnecessariamente ao longo dos meus 13 anos de Londres estavam ligadas à vaidade. Joguei, pela terceira vez naquele ano, muitas sacolas de coisa fora, doei, etc. Viajei muito antes do ano passado, ja tinha aprendido uma coisa ou outra sobre desapego, vaidade e tal,  mas ainda falta aprender mais. E  precisei de quase um ano vivendo com 2 malas para isso. Cada vez que ia ao deposito onde deixei minhas coisas, eu levava mais e voltava com menos. As coisas iam se fazendo cada vez menos necessárias, porque de fato não são.

Me pesei pela primeira vez no começo de 2018 depois de mais de um ano. Eu sabia que tinha engordado, só estava na hora de saber quanto. 6 kilos e meio.  Algumas das minhas calcas  ja não me cabiam. Eu fico incomodada de estar acima do peso, confesso. Mas a importância de estar no meu peso normal mudou depois de 2017. Isso não é motivo de extrema tristeza para mim como antes. Perdi uns kilos, mas continuo um pouco acima do peso. Tudo sem muito abalo psicológico como aconteceria antes. Principalmente porque esses kilos de uma certa forma representam o pisco sour chileno(e peruano!), a bandeja paisa colombiana, as muitas bintangs indonésias( e timorenses), as muitas frutas latinas, a comida da minha mãe, as moquecas capixabas, os churrascos com amigos, os hambúrgueres  e café da manhã inglês de despedida de Londres, as várias cervejas pelo mundo, as minhas descobertas gastronômicas na minha nova casa, as sangrias e cavas espanholas.  É uma banha do amor, hahaha. Tem muita historia nesses kilos.

Viajar me fez menos vaidosa. E muito, mas muito melhor.

 

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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no "sobre" e escolha "sobre mim" na barra superior.

5 comentários em “Viajar me fez menos vaidosa

  • outubro 4, 2018 a 12:00 am
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    Gostaria de ser assim, me diz o q te fez largar tudo e viajar?

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    • dezembro 4, 2018 a 8:50 am
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      hahaha Lu, o meu relacionamento de 13 anos acabou, eu tive uma oportunidade de sair do meu trabalho anterior numa situação que me favoreceu a fazer essa viagem também. Eu também tinha muitas perguntas sobre o que fazer da minha vida depois dessas mudanças e sabia que não queria mais morar em Londres. Então resumindo foi: eu não tinha muito a perder e precisava de um tempo para rever minha vida. Acho também que o fato de não ser uma pessoa muito medrosa e um pouco inconseqüente em relação ao futuro ajudou, hahaha. Foi a mistura disso tudo. Mas estou consciente que isso eh um privilegio, muita gente quer poder fazer isso mas não se pode dar ao luxo, e eu sei. Então digo que alem de tudo, foi sorte tb.

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  • outubro 16, 2018 a 2:39 pm
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    Seu texto é inspirador, como sempre! Como é bom aprender com experiencias e com os anos.
    Um brinde à felicidade leve e despreocupada. Um brinde às mulheres que nos tornamos.
    Que a vida continue te presenteado com o que é realmente essencial.

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    • dezembro 4, 2018 a 8:51 am
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      Obrigada 🙂

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