Auschwitz- Polônia

Eu pensei que poderia ser muito pesado falar de Auschwitz assim no primeiro post do ano. E apesar de ser a nossa “saudade de quinta” eu não tenho exatamente saudade do que vi nesse lugar. Mas ao mesmo tempo, essa é uma época que a gente faz reavaliações, pensa na vida e para mim é uma época de muita gratidão. Não importa como foi o ano que passou, mas se a gente ainda está neste mundo, é porque tem algo para agradecer. E em poucos lugares eu me senti tão grata pela minha vida como em Auschwitz. Visitamos o campo de concentração mais famoso do mundo em 2010. Fizemos um daytrip para lá a partir da Cracóvia, que é uma cidade alegre, jovem, universitária. Um contraste enorme com clima pesadíssimo do campo de concetração. Apesar da cidade ter várias outras atrações interessantes, não tem jeito, é Auschwitz que leva a maioria dos turistas para lá. Mesmo estando a 50km de Auschwitz, a Cracóvia é uma cidade que tem mais a oferecer turisticamente do que Oświęcim, que é a antiga cidade de Auschwitz onde ficam os 3 campos de concentração.

auschwitz

Auschwitz é muito conhecido por ser o maior campo de concetração e extermínio nazista. Na verdade chamar aquilo de campo de concetração é até injusto. Auschwitz era mais um complexo mesmo, com 3 campos principais e 45 sub campos. Mais de 1 milhão de pessoas morreram lá. Só por aí já dá para imaginar o quanto o ambiente é pesado. Eu não vejo espíritos e não tenho opinião formada sobre o assunto, mas se você é muito sensível espiritualmente falando deve ser muito dificil visitar um local assim.

trem auschwitz

Auschwitz I, era conhecido como o ” campo principal” por ser o primeiro e já chegou a ter até 20 mil prisioneiros de uma só vez. O segundo e maior campo era conhecido como Birkenau ou simplesmente Auschwitz II, que era não só o campo de concentração como de extermínio onde a grande maioria dos prisioneiros dos campos foram assassinanos. O terceiro campo era um dos campos satélites que foi transformado em Auschwitz III por seu tamanho e com o objetivo de ser um campo de trabalho escravo.

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Visitamos Auschwitz I e II. A visita começa por Auschwitz I com um tapa na cara. Na porta do campo a frase”o trabalho liberta” já deixa os nervos a flor da pele. Quando fomos o céu estava incrivelmente azul e o silêncio do local faz tudo parecer estranhamente sereno. As visitas são obrigatoriamente guiadas e apesar de eu não gostar de imposição acho que conhecer os campos sem aquela aula de história dada pelos guias não faz muito sentido. A gente acha que sabe alguma coisa sobre a segunda guerra mas ao chegar lá, cada explicação do guia faz tudo ficar ainda mais pesada e revoltante, mas faz alcançar o objetivo do memorial, que é lembrar das vítimas com respeito sem deixar a história triste que ali aconteceu morrer. É preciso lembrar de um horror daquele para aprender com ele. E para ser grato.

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A gente sempre associa campo de concetração nazista aos judeus. Mas não eram só eles. Negros, criminosos(de verdade), ciganos, homessexuais e tudo que era considerado fora do padrão pelos nazistas ia para o campo de concetração. E o resto a gente sabe pelos filmes: famílias eram separadas, suas roupas e pertecem eram tirados deles, todos que eram considerados peso morto para o trabalho morriam logo de cara(idosos, mulheres, crianças), todos esses horrores que vemos nos filmes.

Dentro do forno humano
Dentro do forno humano

É impossível não se chocar com os milhares sapatos e roupas usados mantidos pelo memorial, assim como cabelos(todos tinham seus cabelos raspados ao chegarems nos campos). A gente já viu em filme, já leu, já estudou a respeito, mas estar lá faz você sentir ao invés de ser só um espectador. A perspectiva fica mais real pois você se projeta para dentro daquela história.

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Fotos não são permitidas dentro de muitos dos prédios, e algumas salas foram mantidas exatamente como encontradas. Uma coisa particularmente chocante foi saber que um dos médicos de Auschwitz fazia experiências com os prisioneiros. Na verdade os médicos dos campos só faziam experimentos e atendiam os soldados. Salvar a vida de prisioneiros? Jamais! Mas o que me chocou mesmo foi saber que um desses médicos, Josef Mengele, tinha um interesse especial em gemêos e anomalias hereditárias. E essas pessoas sofriam com seus experimentos, como ratos de laboratório. O guia contava as histórias e o arrepio na espinha só aumentava.  Curiosidade: esse mesmo médico fugiu e acabou morando um tempo no Brasil, onde faleceu.

cercaeletricaauschwitz

Outra imagem que eu jamais esqueci foi a da camara de gás principal, onde milhares e milhares foram mortas. Prestes a serem rendidos , os nazistas destruiram muita coisa para não deixarem evidências. A camara não foi totalmente destruida e assim permanece até hoje. Os poloneses deixaram tudo exatamente como está, como uma lembrança do que aconteceu.

camara de gas

 

Outro fato curioso foi que o comandante de Auschwitz, Rudolf Hob, pagou sua sentença de morte sendo enforcado ao lado do crematório principal de Bierknau 2 anos depois de capturado. Uma réplica da forca é mantida no local até hoje.

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A parede onde muitos prisioneiros eram executados foi outra coisa que me causou calafrios. Talvez por já ter visto cenas de prisioneiros da guerra mortos em paredes como aquela tantas vezes em filmes e imaginado como foi na vida real, ou mesmo porque aquilo foi real e estava ali na minha frente. É um sensação estranha.

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Imaginar  a condição que as pessoas viviam ali é no mínimo deprimente. Além de todo o sofrimento, tristeza e do trabalho escravo, viver em condições sub-humanas não devia fazer nada mais fácil. Pensar que no inverno polonês eles tinham que se aquecer como podiam nos alojamentos congelantes, e pensar que dentro mesmo do alojamento eles muitas vezes faziam tudo: urinavam, defecavam, dormiam, etc. E se engana quem pensa que no verão era ”mais fácil” pelo clima. Imagine o odor dessa mistura no calor… É muito triste. E de lembrar tudo isso eu me pego sentindo o mesmo aperto no peito que senti no dia que estive lá.

alojamentoauschwitz

Tantas atrocidades aconteceram lá que quando Rudolf Vrba and Alfred Wetzler fugiram de Auschwitz e contaram o que acontecia as pessoas simplesmente não acreditaram. Demorou para que o Conselho Judeu acreditasse que eles não estavam somente capturando e mantando judeus, mas matando em massa, cremando corpos, fazendo experimentos.

trilho auschwitz

E assim ficamos, descrentes. No ser humano, na vida, em nós mesmos. O tour acabou e ficamos meio sem ter o que falar, totalmente passados, foi estranho. Acho que é a reação geral. Tanto que no final, o guia falou umas palavras que nunca sairam da minha cabeça, talvez para dar um ponto final no tour e não deixar as pessoas tão apáticas daquela maneira. “Vocês pensam que isso é chocante, que se estivessem vivido naquela época não teriam aceitado, teriam feito diferente, mas quantas guerras já não aconteceram depois desta, quantas coisas horríveis nós já vimos acontecer nos dias de hoje, e o que você fez a respeito? Ou ainda, o que eu poderia fazer para mudar isso se vivesse naquela época, o que posso fazer para mudar algo hoje? Será que eu, na minha vidinha mais ou menos posso mudar algo nesse mundo enorme? E a resposta é que não há mudança pequena, todo gesto de amor ao próximo é algo enorme. Essa a missão de cada um de nós”

auschwitz flor

 

*Toda quinta vamos publicar fotos e escrever sobre viagens do passado, numa referencia ao famoso hashgtag #throwbackthursday usado nas redes sociais para identificar uma foto do passado. A intenção dessa série de posts não é necessariamente dar dicas práticas, pois por serem antigas elas podem estar fora do contexto atual do local. A idéia é inspirar com fotos e lembranças de lugares incríveis!

 

 

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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no "sobre" e escolha "sobre mim" na barra superior.

Um comentário em “Auschwitz- Polônia

  • março 13, 2015 a 2:17 pm
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    Muito muito rico de informações, meus parabéns. Se conseguir ir ano que vem na JMJ na Cracóvia pretendo visitar o Campo de Concentração em Auschwitz.
    A propósito, quantos custa a visita? Quais os idiomas disponibilizados no guia?

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