Atentados em Londres- como foi ver isso de perto

Este ano, os atentados de 2005 ao metro de Londres fizeram 10 anos. E no dia 07/07/05 eu estava em Londres, e vi  tudo de perto. Esses dias conversando com a Natasha do Pra ver em Londres eu me dei conta: nunca contei aqui. Resolvi aceitar a sugestão dela e fazer um post sobre esse dia.

O dia 07/07/05 era um dia importante para mim. Era o nosso primeiro aniversário de casamento! Mas para a nossa tristeza, nós dois iriamos trabalhar, eu de dia, e ele à noite, e a comemoração teria que ficar para o final de semana(era uma quinta). A cidade estava num clima de felicidade porque dias antes anunciaram que as Olimpíadas 2012 seriam em Londres! Nessa época eu saía super cedo para o trabalho, e sempre ia de ônibus.  Mas justo nesse dia me atrasei e peguei o metrô. Acontece que o metro parou 3 estações depois da minha e ficou. Não andava. Ficou parado por quase meia hora. Lógico que todo mundo percebeu que algo estava errado, mas duvido que alguém tenha pensando em terrorismo. Todo mundo tinha aquela cara de : ferrou, vou te que explicar para o chefe, não de: “ferrou, vou morrer”.

Mas acho que a gente só conseguiu notar que era algo além de uma zica normal do transporte quando o motorista anunciou: infelizmente não poderei estacionar meu trem na plataforma. Vocês terão que sair pela minha cabine. E assim foi. Ao chegar na plataforma o que vimos? Policiais e bombeiros checando os trilhos do trem. E o anúncio que a maior parte da Northen line, a linha de metro que estava usando, estava fechada.

Ao sair da estação, um susto maior ainda: 8 carros de bombeiros e inúmeros carros de polícia. Não era 8 horas da manhã ainda, a primeira bomba só foi detonada às 8:49, eles sabiam que algo iria acontecer, que algo estava errado, mas para quem estava indo para o trabalho aquilo ainda era só uma incoveniência. Estranha, mas uma incoveniência.

Os pontos de ônibus estavam lotadíssimos. Cheguei no trabalho super atrasada, como todo mundo. O papo era que teve uma falha elétrica em todo metrô de Londres. Mas aquela altura a gente já estava desconfiando que era algo sério. So que a gente demorou bastante para mencionar a palavra bomba. No início a gente até riu, brincou do caos. Até que os jornais começaram a falar que algo estava acontecendo, mas sem tocar no assunto terrorismo ainda. Acho que todo mundo tinha medo de falar e criar o pânico generalizado.

Lembre-se que isso tem 10 anos. As noticias não chegavam na velocidade frenética de hoje em dia. Não tinha Facebook, nem Instagram, nem Snapchat. Os jornais tinham um certo controle do que eles queriam que a massa soubesse ou não. Sem contar uma coisa: não pega internet no metro de Londres. Só nos que passam na superfície. Hoje em dia tem wifi nas plataformas, mas naquela época nem isso.

Mas aí começaram a chegar carros e mais carros de bombeiros  nas portas das estações, e todo mundo aceitou que aquilo não era uma falha elétrica, era algo maior. Foi só quando começaram a sair os feridos que a noticia real foi dada: era um ataque terrorista. Eu não sei, me deu um gelo na espinha quando soube, e fui correndo ligar para o Klaus e pedir para ele não sair de casa. Consegui falar com ele, mas não consegui ligar para ninguém no Brasil.  A hora que a noticia foi dada, o caos de verdade se implantou. Os telefones estavam funcionando super mal, sem recepcção, pelo menos no centro financeiro, que é onde eu estava, e por sinal era o olho do furacão. Então eu consegui dar a noticia por fotolog! Quem lembra daquilo? rs Consegui atualizar e dizer que estava tudo bem conosco e foi assim que minha família teve noticias nossas, porque telefone foi dificil por um tempo.

Enquanto tudo isso acontecia, a bomba do ônibus explodiu. Justo quando a gente pensou que não tinha mais nada para acontecer… Como os ataques foram coordenados, hoje sabemos que o suicida que explodiu sua bomba no ônibus passou pela Northern Line(a linha onde eu estava) justo nos horários do ataques, e que provavelmente seu plano era explodir sua bomba lá mas não o fez talvez porque grande parte da linha estava parada, ou  por algum outro problema que salvou a vida de quem, como eu, estava passando pela linha. Enquanto isso, o Klaus estava em casa dando entrevista para CBN pelo telefone(fixo, que era o único que funcionava!).

Quem estava bem no centro de Londres durante essa confusão toda como eu pode confirmar: o clima era tenso. Eu andava nas ruas e via o medo estampado no rosto das pessoas. Elas queriam sair dali, onde a gente sabia que podia acontecer algo a qualquer momento. Os terroristas conseguiram não só matar mais de 50 pessoas, mas também implantar o pânico. Como a policia fechou praticamente todo o transporte público no centro, pegar táxi era ganhar na loteria. Eu consegui sair do trabalho por volta das 2 e fiquei perambulando pela cidade meio sem saber como ir para casa.

Ao mesmo tempo que eu via o pavor na cara de todo mundo, eu via suspeitos. Todo mundo era suspeito, qualquer um podia ser um terrorista ali. E tinha MUITA gente andando na rua, então dava uma agonia pensar que naquela multidão podia estar mais um doido. E que você não podia fazer nada, já que andar era a solução naquele momento sem táxi, sem transporte publico. Então depois de alguma espera eu consegui pegar um trem de London Bridge. LOTADO, mas consegui, e parar uma estação bem distante de casa. Depois que a poeira baixou, os celulares já funcionavam melhor e voltei no trem conversando no celular com o Klaus o caminho todo porque o medo era tão grande que eu precisava me distrair. Andei horas até chegar em casa. Não lembro 100% do meu caminho todo, acho que consegui pegar um ônibus no meio do caminho também, mas pelo que lembro  entre trem, caminhada e ônibus, demorei mais de 4 horas para chegar. E a única coisa boa daquele dia, foi que a gente conseguiu ficar junto no nosso primeiro aniversário de casamento, coisa que não estava nos planos.

No dia seguinte, eu fui trabalhar. Poucas pessoas foram. Era sexta, e eu acho que ninguém tinha cabeça para pegar metro. Várias linhas ficaram paradas e não funcionaram 100% também por causa das bombas, que atingiram diretamente pelo menos 4 estações. O clima era de enterro. Tinhamos um show para ir, e eu fui contrariada, principalmente porque precisamos pegar metro no dia seguinte ao atentado. Pode parecer exagero para quem não viveu, mas quando algo assim acontece tão perto de você, fica dificil esquecer, desligar e viver a vida como se nada tivesse acontecido. Não dá. O sentimento de medo ainda fica na gente, nos detalhes, nos flashes.

Duas semanas depois e o clima ainda era levemente estranho, mas as pessoas estavam tentando voltar à normalidade e … outro atentado aconteceu. Pouca gente lembra disso, mas um ataque muito similar quase aconteceu dia 21/07 quando 4 bombas explodiram, 3 no metro e uma num ônibus.  Pelas notícias que li na época, as bombas foram feitas exatamente do mesmo material das de 07/07 e tudo indica que elas foram feitas juntas. As noticias diziam que como a fabricação foi caseira, com materiais idem, as bombas tem uma espécie de data de validade. Por isso quando foram usadas 2 semanas depois das primeiras, não fizeram muita coisa além de barulho. Acho que quebraran um vidro também, e só. Ainda foi encontrada uma quinta bomba abandonada, que era exatamente como as demais. Obviamente que o clima tenso voltou a reinar, assim como o medo generalizado.

Quando a  gente achou que não tinha mais o que acontecer, no dia seguinte o telefone toca. Era um amigo nosso polonês dizendo que ele estava na estação de Stockwell e tinha acabado de ver a policia atirar num terrorista. “Fiquem em casa” , disse ele. A gente obrigatoriamente passava por Stockwell quando usava o metro. Mais ou menos 40 minutos depois da  ligação, deu no jornal. Mas não era um terrorista, e só no dia seguinte soubemos que era o brasileiro Jean Charles que não tinha nada com aquela história, e morreu injustamente.

Eu não conheço nenhum sobrevivente dos ataques, aquilo não me atingiu diretamente como a familias que perderam seus filhos, pessoas que ficaram tiveram que conviver com alguma sequela para sempre.  Mas saber que tudo aquilo aconteceu assim, tão pertinho da gente, de uma certa forma marcou a minha vida. Não me deixou traumatizada, não estou aqui para fazer drama, mas é algo que ficou em mim. Por muito tempo eu não andei na parte de cima do ônibus. Loucura pura, já que se tivesse uma bomba isso não faria muita diferença. Mas a imagem do ônibus sem a parte de cima mexeu comigo. Por muito tempo eu evitei metro também. E até hoje eu mudo de vagão quando desconfio de algo. Já vi inumeros programas sobre terrorismo, sei de alguns comportamentos que quase todo terrorista tem antes de praticar seu ato “heróico” e confesso que fico de olho nas pessoas. Tudo isso é inútil, pois não existe esterótipo para terrorista, isso é bobagem e preconceito. O suicida que mais matou gente no dia  07/07 inclusive era jamaicano. Então não tem razão de desconfiar de nada ou ninguém, de desrespeitar alguma raça ou povo por causa disso. Os extremistas são somente uma porção podre de uma religião que como qualquer outra, merece respeito.

Depois disso quase aconteceram outros atentados em Londres, como o carro bomba que acharam na frente do club Tiger Tiger, de vez em quando eles admitem que a questão não é se um novo ataque acontecerá, mas quando ele ocorrerá,  já tivemos que evacuar o prédio do trabalho porque acharam uma bomba no prédio vizinho, prédio este que é famoso por ter sido destruído em um ataque terrorista do IRA, e a gente vê diariamente outros episódios chatos assim, coisas que mostram que isso foi algo que marcou a cidade, e a vida das pessoas. Mas a vida segue! Segue porque tem que seguir, porque o terrorismo não quer matar só 52 pessoas, quer implantar o pânico. Assim ele mata muito mais do que 52 vidas. E nesse caso a nossa única arma  é não ceder, e viver a vida sem medo!

 

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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no "sobre" e escolha "sobre mim" na barra superior.

12 comentários em “Atentados em Londres- como foi ver isso de perto

  • agosto 20, 2015 a 6:03 pm
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    Que relato emocionante, eu fiquei com um frio na espinha só de ler o que aconteceu com você! É até difícil comentar, mas como você disse, a vida tem que seguir, né!
    Adorei o novo layout Lili! Beijos

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    • agosto 21, 2015 a 6:36 pm
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      Obrigada, Flávia. Mas é uma experiência que levarei para a vida. bjs

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  • agosto 21, 2015 a 1:41 pm
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    Nossa Li, não posso imaginar o quão horrível e traumatizante isso foi para todos que vivenciaram, mas consegui ter uma idéia de como foi desesperador com o seu post!
    Meus sogros moravam em uma cidade vizinha de Londres na época e também ficamos muito preocupados, mas graças a Deus eles não estavam nem perto de Londres no dia.
    Adorei o post!
    Beijão

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    • agosto 21, 2015 a 6:37 pm
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      Foi chato , não digo traumatizante, mas algo que me marcou. Obrigada, lindona. Saudade de vc! bjs

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  • agosto 23, 2015 a 12:45 am
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    Muito bom e muito interessante!
    nao so esse post, mas o blog inteiro!
    tenho vasculhado muuuito ele nos ultimos dias, ja que daqui a duas semanas estou indo p Londres passar 1 ano 🙂
    obrigada pelas infinitas dicas !!! 🙂

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    • agosto 24, 2015 a 9:59 pm
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      Que bom, Larissa! Espero que as dicas ajudem na sua viagem. Depois volta aqui para contar viu? bjs

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  • agosto 30, 2015 a 7:46 pm
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    Que angústia Lili! Mesmo sem ter vivido isso às vezes eu me pego pensando sobre, imaginando quando/como será o próximo. Londres é Londres e eu infelizmente acredito nessa ideia de que “não é se vai ter outro ataque mas sim quando vai ter outro”, pensar nisso dá um medo danado mas a única coisa que a gente pode fazer é seguir em frente né… E torcer pra que demore muuuuuito tempo até outra coisa horrível acontecer por aqui.

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    • setembro 2, 2015 a 11:17 am
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      Ai Thais, tb me pergunto quando isso vai acontecer, mas não dá para viver no medo né? O melhor é seguir a vida sem se estressar e pensar muito nisso porque o nosso controle é zero em relação à esse tipo de tragédia. bjsss

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  • novembro 17, 2015 a 3:35 pm
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    Oi. Estou com viagem marcada/comprada para Londres e Lisboa em fevereiro. Até deu uma vontade de cancelar, depois desse atentado em Paris. Como está o clima em Londres e os riscos de atentados?

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    • novembro 18, 2015 a 11:01 am
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      Ana, não cancelaria por isso. O clima, no sentido de atmosfera está normal em Londres. Lógico que em Paris as pessoas devem estar apreensivas, mas duvido muito que isso vai mudar sua viagem que é só em fevereiro. Risco de atentado sempre tem, isso nao muda muito com o que aconteceu em Paris para ser sincera. Alguma coisa pode até acontecer nesse meio tempo e mudar tudo, mas isso é um risco que existe há pelo menos 10 anos. Terrorismo é uma realidade em qualquer cidade da Europa, mas isso nao nos faz sair de casa achando que vamos morrer. Arrisco dizer que no Brasil há mais chance de algo acontecer com você do que aqui.

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