Tempo em viagens x Tempo real

“Vocês estão viajando juntas ha quanto tempo?

A gente se conheceu ontem”

Essa é uma situação comum na vida de um viajante. Você conhece alguém, e em poucas horas tem uma amiga ou um amigo para a vida.  Esse fenômeno que a ciência não consegue explicar acontece porque o tempo em uma viagem tem uma dimensão diferente do tempo da vida real.  É como a idade real dos cachorros, que reza a lenda ser a idade do bicho multiplicada por 7. Nas viagens o princípio é parecido. Ainda não cheguei num número ideal, mas por experiência posso dizer que uma amizade de 1 semana em viagem pode ser o equivalente a de 1 ano na vida real se a convivência for diária e intensa.

 

Quando você viaja sozinha ou sozinho isso pode ser algo ainda maior. Depois de dias repetindo: “Oi, sou Liliana, brasileira, moro em Londres há 13 anos, etc ” você está cansada dessa ladainha e esbarra com alguém, ou grupo, e a empatia é espontânea. Se a outra pessoa ou a maioria do grupo que se formou está viajando só também, é possivel que toda essa apresentação esteja cansativa para eles também. Suas histórias parecem refrão daquela música chata que você não gosta de cantar mas não sai da cabeça: ” Eu larguei tudo na vida e vim viajar. Sim, daqui eu vou ao Brasil ficar um tempo. Não, não tem emprego me esperando. Não, não sou doida, só corajosa” E por aí vai. No início é divertido, depois você tá cansado de explicar tudo de novo. E quem fala isso é a tagarela mor, que faz amizade com uma formiguinha se preciso for. Então a idéia de passar um dia com uma pessoa ou um grupo sem precisar repetir tudo isso, e principalmente aprofundando um pouco mais os assuntos além da apresentação padrão, é muito apelativa.

 

Conhecer alguém que você gosta e com quem tem vontade de passar uns dias a mais dá um certo alívio. E você geralmente não está só, seus novos amigos também vão te ver desta forma. Como um momentinho de conforto. Que numa viagem de meses com uma mochila nas costas, com muita roupa suja, muito quarto compartilhado, lanterninha para entrar no quarto de noite, havainas para tomar banho, é no minimo um respiro.

Mas a principal razão desse apego instantâneo acho que é a intensidade com que a gente vive quando está viajando. Talvez essa seja a razão pela qual também as pessoas curtem tanto viajar. A gente sente e vive numa potência máxima quando viaja. E isso se transfere para uma amizade feita numa viagem também. Imagina que um dos momentos mais especiais da minha vida eu dividi com alguém que eu conhecia há menos de 2 semanas. A gente se abraçou e eu chorei vendo aquela maravilha que é Machu Picchu. Naquele momento ela me entendeu e a gente selou uma amizade que mal havia começado. Eu subi um vulcão ativo com pessoas que eu havia conhecido ha poucos dias. E a emoção que a gente dividiu foi a mesma, isso conecta as pessoas de uma forma muito especial. Eu pulei de parapente a primeira vez na vida com 3 amigos que eu fiz em Medellin. Era a primeira vez de todos nós. Estavamos todos de ressaca porque saímos juntos na noite anterior, estavamos todos nos perguntando se aquilo era realmente uma boa idéia, e acabou sendo. Isso é algo que possivelmente vamos lembrar para sempre. Esses momentos tão intensos, vividos em diferentes situações e lugares, muitas vezes eu dividi com estranhos que se transformaram em pessoas da minha vida.

 

Outra coisa é que a tendência é ficar junto o tempo todo. Principalmente se você está viajando sozinha. “Vamos no free walking tour juntas? Vamos no bar tal mais tarde? Qual seu destino depois daqui? Vou reserver um quarto no mesmo hostel que você na proxima cidade” e por aí vai. Com qual amigo ou amiga você passa quase 24 horas junto por dias? Quase nenhum! Em poucos dias você já dividiu dores e delicias com essas pessoas, já prevê reações deles, já sabe as comidas que eles gostam, o tipo de música, se são agitados ou calminhos, se acordam cedo, como se comportam quando bebem demais, quando são contrariados… coisas que muitas vezes a gente leva anos para descobrir numa amizade convencional!

Também tem o fato de não haver expectativa em cima da gente. Ninguém te conhece, logo ninguém espera nada de você. Ninguém sabe se você é calmo, nervoso, desligado, amoroso, etc. Então a tendência é a gente ser mais autêntico viajando do que no nosso dia a dia, quando precisamos manter a calma para não mandar o chefe a merda ou estar totalmente concentrado fazendo uma atividade importante, por exemplo. Isso nos faz criar conexões mais rapidas de uma maneira mais leve. Irônicamente, essa falta de obrigação de ser, nos faz ser nós mesmo mais do que no nosso dia a dia.

Nem todas essas amizades duram eternamente, ou ficam intensas para sempre, mas posso garantir que nem todas são efêmeras como pode julgar quem nunca viveu algo assim, Tenho amigos de anos que fiz em viagens, que hospedei em minha casa e que me hospedaram em suas casas. Pessoas que entraram na minha vida para sempre depois de dias. Quer dizer, depois de dias nesse plano. No plano de viagens, a gente já se conhecia há anos. E hoje somos amigos de infância.

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lilistahr

Uma capixaba morando em Londres há mais de 12 anos, e apaixonada pela capital britânica. Viciada em viagem, com uma queda por praias paradísiacas e destinos menos óbvios. Para saber mais clique no “sobre” e escolha “sobre mim” na barra superior.

7 comentários em “Tempo em viagens x Tempo real

  • junho 23, 2017 a 3:20 pm
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    Que texto maravilhoso, Lili! Lembro de como a gente se conheceu pessoalmente… hahaha Um viva para as viagens que nos aproximam de pessoas e lembranças inesquecíveis!
    Beijoss

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  • junho 23, 2017 a 4:30 pm
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    Que beleza de texto, Lili!
    Não tive oportunidade de vivenciar uma viagem dessas sozinho, mas concordo que a gente se torna mais autêntico quando viaja.
    Não acumulei grandes amizades em viagens, justamente por não viajar sozinho. Mas o inverso também vale: o que tem de amigo real que se torna um porre quando vocês viajam juntos!!! Aquela máxima de que “quer conhecer uma pessoa? viaje com ela!” é muito verdade!

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  • junho 23, 2017 a 6:51 pm
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    Que máximo esse texto. Muito bom relembrar que foi assim que te conheci e vivi um dos momentos mais inexplicáveis da minha vida ao seu lado. Ontem mesmo eu postava um tbt do dia da ascensão ao Lascar e hj somos presenteados com esse texto MARA!!!!!

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  • junho 27, 2017 a 3:34 pm
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    Lili, que corramarlinda!
    Mas eh isso mesmo, acho que quando viajamos a gente eh mais verdadeiro com nos mesmos. Imagine entao uma viagem sozinha? Maravilhoso! To feliz de te ver vivendo tudo isso. Cheiro!

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  • julho 4, 2017 a 1:08 am
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    Nossa, isso é realmente muito verdade, principalmente quando se está viajando sozinho mesmo (porque quando estamos hospedados em hotel e com outras pessoas, acabamos não dando tanta liberdade para conhecer e se envolver com pessoas novas).

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